segunda-feira, 29 de julho de 2013

Coerência?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que, de um lado, aconselha vivamente o uso combinado de coleira de bicos (prong collar) e de "coleira para cães dominantes" (dominant dog collar), mas, por outro lado, afirma convictamente que uma coleira de choques eléctricos é «100 vezes mais humana e mais eficiente do que estranguladoras ou coleiras de bicos»? 

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que baseia toda o seu programa numa "estrutura de matilha" e numa afirmação do dono do cão como líder dessa estrutura, mas que, ao mesmo tempo, não consegue providenciar nenhuma forma de treino e educação que escape ao uso de utensílios mediadores? Não seria de esperar que a afirmação de um dono como líder alfa da matilha lá de casa dispensasse qualquer recurso a instrumentos de consolidação do poder? Qual o interesse em afirmar uma pretensa posição de liderança, se para isso é necessário um ininterrupto controlo da acção do cão, na maior parte das vezes se tratando de um controlo mediado por instrumentos técnicos?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que faz das seguintes frases um lema promocional de um seu produto: «Esta coleira não deverá ser usada para infligir uma correcção dolorosa. Ela deve ser usada para retirar o ar de um cão agressivo e dominante»? Qual a distinção que se pode fazer entre "doloroso" e "retirar o ar de um cão"? A mim, de momento, escapa-me tal distinção, mas, de facto, não tenho cinquenta anos de experiência de uso de tais instrumentos...

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que, para dissuadir os donos de cães de realizarem certas práticas, faz uso recorrente do argumento "um lobo alfa nunca faria isso", mas, ao mesmo tempo, aconselha que 99% da relação com o respectivo cão, nas primeiras semanas ou meses deste lá em casa, seja feita com uma trela posta ou com o cão enfiado numa caixa-transportadora (crate)? Qual é o lobo, alfa ou omega, que passeia os seus filhotes ou inferiores membros da alcateia com uma sofisticada e vistosa trela? 

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que desaconselha, em termos absolutos, qualquer interacção entre os nossos cães e os outros cães na rua? Será possível imaginar forma mais eficaz de tornar o nosso cão num animal extremamente insociável, e, como tal, extremamente difícil de ser passeado num qualquer ambiente urbano?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que, ao mesmo tempo, realça as virtudes de uma socialização do nosso cão com pessoas, mas desaconselha vivamente que algum estranho faça festas ao nosso cão? Que conceito será esse de socialização que apenas implica a convivência próxima com elementos já conhecidos?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que não se cansa de alertar para formas de prevenir mordidas de cães e, ao mesmo tempo, aconselha a que o dono (e estou a citar) «se envolva fisicamente com cães de rua» que não se afastem do nosso cão, nos nossos passeios?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que aconselha a sua audiência a transportar gás pimenta para usá-lo em cães de rua que se aproximem de nós e do nosso cão quando andamos na rua?


Serão precisos mais cinquenta anos de experiência para que esta gente se aperceba de tamanhas incoerências e absurdos?

sábado, 27 de julho de 2013

Silêncio, por favor

"Desculpe, mas..."
BUZZ
"...eu gost..."
BUZZ
"...ava de pedir..."
"BUZZ"
"que me ti..."
"BUZZ"
"...rasse isto..."
BUZZ
"...do meu..."
BUZZ
"... pesco..."
BUZZ
"...ço, porque..."
BUZZ
"...é isto mes..."
BUZZ
"...mo que me..."
BUZZ
"...está a dei..."
BUZZ
"...xar nervo..."
BUZZ
"...so e a fazer-..."
BUZZ
"...-me falar..."
BUZZ
"...sem parar..."
BUZZ
"...PORRA."
BUZZ

Um cão tem várias formas de comunicar. Ladrar é apenas uma delas; uma entre muitas. Mas todas as restantes implicam uma proximidade física e um grau suficiente de visibilidade. Quando o "receptor" das mensagens não se encontra no horizonte, a única forma de um cão se expressar é vocalizando. Se um cão ladra em demasia quando está sozinho em casa, o problema não está nos latidos, mas no tédio, na solidão, no aborrecimento que advém de não ter nada que fazer nem ninguém com quem estar. A solução passa por enriquecer o ambiente do cão nos tempos de solidão, e estimulá-lo ao máximo no resto do dia, para que os períodos de solidão sejam mais dedicados ao descanso. Se um cão ladra na presença do carteiro, o mal não está no ladrar, mas no incómodo que essa presença causa no cão. A solução passará por uma dessensibilização ao estímulo em causa, e a prevenção estaria numa rica e continua socialização com elementos estranhos. Seria de esperar que profissionais com mais de quarenta anos de prática chegassem a este tipo de conclusões de forma instantânea. Mas não. Por razões misteriosas, ainda há quem prefira concentrar-se no ladrar em si mesmo; ainda há quem se concentre em formas de terminar com os latidos, sem se preocupar no que lhes está subjacente. Invariavelmente, quando isto acontece, a recomendação recai no uso de um colar de choques ajustado para ser accionado ao som dos latidos do cão. O cão ladra, recebe um choque. O cão ladra, recebe outro choque. E por aí fora. «A beleza do sistema é que a estimulação da coleira [de choques] pode ser ajustada para um valor em que o choque não aleija, sendo apenas ligeiramente desconfortável», ouvimos dizer de experimentados e reconhecidos profissionais. A beleza? Qual beleza, meus caros? Que beleza há em relegar a educação dos nossos cães para instrumentos que até nem aleijam muito, e só provocam um ligeiro desconforto? Uma coisa é usar instrumentos que nos ajudem a aprofundar a nossa comunicação com os nossos cães; outra coisa é usá-los para não ter de educá-los de outro modo. 
Em primeiro lugar, a mim não importa se a coleira dá choques muito intensos ou só ligeiramente intensos; por mim até podiam fazer cócegas: é uma desculpa boçal para treinar o cão desde o sofá. 
Em segundo lugar, não me venham com tangas, ok? Se um cão deixa de ladrar devido aos castigos induzidos pela coleira, creio que não é preciso ser muito especulativo para se perceber que o incómodo causado está longe de ser apenas "ligeiramente desconfortável". Quando um cão ladra, sobretudo por recreação quando está sozinho, quando está ansioso pela separação dos seus donos, ou quando está na presença de figuras como carteiros ou ardinas que pairam no portão de casa, esse ladrar é já manifestação de um estado intenso de nervos, ansiedade, desconforto. Para que um cão deixe de manifestar esse desconforto e essa ansiedade pela forma que lhe é mais natural, imaginemos todos nós que a coleira de choques não está apenas a ministrar uma vibraçãozinha.
Em terceiro lugar: castigar e cessar os latidos não elimina as razões pelas quais o cão está a ladrar. Bem pelo contrário, só se está a aumentar a intensidade da ansiedade e do desconforto em causa. Quando alguém coloca um colar "anti-latido" no pescoço do seu cão, uma de duas coisas está a acontecer: ou não consegue entender absolutamente nada da constituição do seu cão, ou tem as suas prioridades tremendamente pervertidas, pois prefere apagar o desconforto (seu e dos vizinhos) que existe em ouvir o cão ladrar, em vez de se preocupar em cuidar das razões que levam o seu cão a ladrar tão intensamente. No caso de donos inexperientes, a primeira possibilidade é, vá, admissível. No caso de experimentados e reputados profissionais, as duas são igualmente deploráveis. 

Para compreender melhor estes três pontos, imagine o caro leitor que está num desses programas para deixar de fumar baseado na administração de choques eléctricos. 
Se recorreu a este método, acredito que o seu vício é consideravelmente acentuado. De outro modo, procuraria outro método, não? Estou certo de que preferiria deixar de fumar usando métodos não só mais saudáveis e menos extremos, mas, sobretudo, métodos que tivessem mais a ver com a sua própria vontade e não com um tipo de condicionamento externo e maquinal. Portanto, ponto um, usar os choques como forma de educar um hábito é um recurso que passa por cima de uma educação comunicativa e voluntária. Em fumadores e em latidores. 
Muito bem, se tem um vício vincado, então teremos de admitir que não é com cócegas nem com vibrações de telemóvel que a coisa vai lá. Esperneie por onde quiser, argumente o que lhe apetecer: os choques têm de ser aversivos o suficiente para que o leitor perca a vontade de fumar. Não há volta a dar-lhe. Portanto, ponto dois: os choques, para funcionarem, têm de ser intensos o suficiente para quebrar um hábito que, de si, é bastante forte e auto-reforçante. Para fumadores e para latidores.
Agora imagine que fuma por razões de ansiedade ou nervosismo; fuma para aliviar esses estados internos. Ou então, fuma como forma de colmatar momentos de solidão (isto é, para preencher as alturas em que se encontra em público, mas sem companhia). Já se sabe que o comportamento humano é extremamente complexo, e ninguém fuma apenas por uma razão tão clara e linear; mas pronto, façamos este exercício para manter a analogia. Ora, se deixar de fumar por causa da estimulação aversiva que os choques lhe provocam, isso não vai apagar os motivos pelos quais fumava: uma sessão contínua de choques não vai deixá-lo menos ansioso, menos nervoso, nem vai colmatar a sua solidão. Portanto, ponto três, usar choques como forma de parar um hábito não apaga as razões que estão por detrás desse hábito. Em fumadores e em latidores.
E, por fim, imagine que, de todas as vezes que levar choques eléctricos, o técnico que o auxilia está à sua frente. Mas quando não está a levar choques, esse técnico sai de cena. Ora, depois de várias sessões, a presença desse técnico (que apenas está presente na altura dos choques) torna-se antecipador das sensações que os choques lhe provocam. Se acha que não, pense lá bem: o resultado de uma terapia de choques é que o fumador, de todas as vezes que voltar a pegar num cigarro, tem uma náusea extremamente desagradável por causa da associação que lhe foi causada entre o acto de pegar num cigarro e o choque sofrido. Ora, se o choque está associado, não apenas ao acto de pegar num cigarro, mas também à presença daquele técnico em específico, a sensação desagradável também se estende a essa presença.
Agora imagine que não é um humano, com toda a sua capacidade de abstracção e de racionalização das questões; imagine que é uma verdadeira máquina de estabelecer associações: imagine que é um cão. Imagine que costuma ladrar sempre que vê um carteiro e, agora com uma coleira anti-latido, de cada vez que um carteiro está diante de si, leva um choque, porque ladrou. Ora, imagine lá que efeitos este tratamento de choque vai fazer em relação a impressão que vai ter do carteiro. Agora imagine que os cães ladram por mais razões e levam choques em todas essas ocasiões: presença de carteiros, de lixeiros, presença de outros cães... Será de admirar que grande parte dos cães que usam ou usaram coleiras anti-latidos são cães muito pouco sociáveis?

Voltemos, enfim, à epígrafe inicial. Ladrar é uma forma de expressão dos cães. Usar uma forma de castigar cada latido do cão não faz sentido nenhum. Deixa o cão sem qualquer tipo de escolha. Perante situações de perigo ou desconforto, um cão tem sempre três formas de reagir. Fugir, lutar e desistir (suprimir qualquer tipo de actividade; entrar num estado de zombie). Perante um choque de uma coleira, um cão não pode fugir, nem pode lutar. Entra num estado de learned helplessness, num estado de zombie comportamental. Tal cão não aprendeu a deixar de ladrar: aprendeu a desistir de se expressar. O resultado é o mesmo? As prioridades de quem achar que o resultado é o mesmo são, quanto a mim, muito claras: o que importa é terminar os latidos, não importa como, nem importam as consequências.
Não quero dizer que, por ser natural, os latidos devam ser ignorados. Mas se existem outras formas de lidar com eles, por que razão recorrermos a um dispositivo tão frio (porque usa um tipo de comunicação perversa e distante), doloroso (porque inflige dor, digam o que disserem), ineficaz (porque não ataca as causas do problema), castrador (porque remete o cão para uma situação de não-comunicabilidade) e perigoso (porque provoca danos colaterais muito graves no comportamento futuro)? Porquê?



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Não fui eu!

"O meu cão não me deixa dormir. Ele ladra a noite inteira."
"Hm, e qual a sua acção quando isso acontece?"
"Tento castigá-lo, mas nada, ele continua."
"Cuidado com a forma como castiga o seu cão."
"Como assim?"
"Convém que o faça de forma 'despersonalizada'."
"Ãh?! o que é isso?"
"É um tipo de castigo que é aplicado mas de forma a que o cão não perceba que foi o dono que o aplicou"
"Ah, estou a ver. Mas por que razão se faz isso?"
"Para que o cão não aprenda a associar as más consequências ao seu dono."
"Mas não deveria associar? Não deveria ele perceber que sou eu mesmo que o estou a castigar?
"Pois, mas se ele fizer essa associação, a sua ligação com o seu cão pode ficar deteriorada"
"Mas não é esse o objectivo do castigo: fazer com o cão perceba que eu não aprovo tal comportamento? Não deveria eu estar a assumir o papel de líder?"
"eerr, pois, isso é verdade. Mas é melhor que o nosso cão não nos associe aos castigos. Isso pode arruinar a nossa relação com ele..."

Uma das mais recentes modas no treino de cães incide sobre aquilo a que se vem chamando de "punição despersonalizada" (em rigor, isso já se faz há muito, mas a voga do termo é recente, e, com ela, toda uma ideologia adjacente...). O seu princípio é bastante simples: o dono castiga o seu cão mas fá-lo de forma a que o cão não saiba que é o dono que o está a castigar. Tudo em nome da manutenção do vínculo que une dono e cão. Vínculo? Mas qual vínculo? Que vínculo é esse que poderá ser ameaçado pelo facto de corrigirmos o nosso cão frontalmente? Ou deverei perguntar, antes, que castigo é esse que ameaça deitar abaixo o vínculo entre o dono e o seu cão? Das duas, uma: ou o vínculo é extremamente frágil, ou as correcções são demasiado vigorosas. Ou, se calhar, as duas ao mesmo tempo. É que se o vínculo é forte e se a correcção é suave, justa e ponderada, por que raio alguém poderá pensar que o vínculo pode ser desfeito, destruído? 
O mais grave, ainda, reside na forma como toda a lógica pela qual nós educamos os nossos cães é pervertida. Educar um cão é comunicar com ele; a beleza do treino e da educação dos nossos cães é que lhes estamos a ensinar a comunicar connosco, comunicando com eles. Educar um cão é fortalecer o vínculo que nos une. Ora, tudo isto é pervertido quando começamos a congeminar esquemas, montar dispositivos, elaborar engenhocas que castiguem os cães despersonalizadamente, que é o mesmo que dizer, castigar os cães e fingir que não fomos nós. Haverá forma mais perversa, desonesta e cobarde de educar um cão? Se tem dificuldades em conceber o que é um castigo despersonalizado, é só ver os Alexandres Rossis desta vida a enrolar latas com fios fininhos que vão dar a uma tábua que está em cima do balcão da cozinha para que, quando o cão saltar para o balcão e tentar roubar comida, as latas caiam e provoquem um barulho que assuste o cão (esquema bastante estúpido e ineficaz, porque, se o cão tentar uma segunda vez, o barulho já não acontece, e não se cria nenhum padrão de consequências más para o respectivo comportamento); é ver os líderes da matilha desta vida emularem a boca de um cão com os dedos para fingir que, naquele momento, nós próprios somos um cão (um cão esquisito, que tem dentes no fim dos membros e não na boca) e não o humano que lê livros, vê televisão, segura na trela dele mas não usa nenhuma, faz xixi de pé e numa sanita, veste roupas e come com talheres (tudo coisas muito caninas, com certeza); é ver os Rabah Madjer desta vida a dar toques de calcanhar no lombo do cão para "redireccionar" a atenção deste sem que ele perceba que fomos nós que o fizemos; é ver os Muay Thai do treino canino que, para ensinar o cão a não saltar para cima do dono quando este chega a casa, fingem estar muito contentes com o cumprimento dos seus cães, mas, ao mesmo tempo, colocam o joelho de forma a causar um impacto desagradável e, assim, dissuadir o seu cão de repetir a proeza. Repare o estimado leitor no empenho engenhoso de que tanta gente é capaz só para não ter de confrontar o cão. Repare no tempo que muita gente gasta para não gastar tempo a educar os seus cães. 

É neste contexto que surgem as coleiras de choques eléctricos. Para além de poderem castigar o cão à distância, estes dispositivos permitem também providenciar más consequências para os comportamentos errados dos cães sem que essas más consequências sejam associadas ao dono. A mecânica da coisa é mais ou menos esta:
> o cão está a aprender a seguir o dono, com ou sem trela > enquanto segue o seu dono, nada acontece, nem de bom nem de mau (ou até podem acontecer coisas boas, como o dono ir dando biscoitos; para o efeito em causa, tanto faz) > no momento em que o cão se distrai e segue outro caminho, ou simplesmente pára, leva um choque (sobre a retórica do "não é bem um choque, é uma vibraçãozinha de nada", já se falou aqui no abacaxi, portanto, não venham com histórias, por favor) > o cão assusta-se, olha para o dono > este como que diz "não fui eu" > e cão volta a seguir o dono > o processo repete-se algumas vezes até que o cão aprenda a lição. 
E que tal tirar um tempo para ensinar o cão a gostar de seguir o seu dono? E que tal tirar um tempo para construir uma marca verbal de correcção de comportamento (um non-reward mark, de que falaremos a devido tempo)? E que tal ensinar o seu cão a comunicar consigo e aprender a comunicar com ele?
Qual é o objectivo da educação do seu cão: dar espectáculo no parque e ter um cão que o segue mesmo sem trela, ou aprofundar a relação que tem com o seu cão? Quando alguém coloca uma coleira de choques no pescoço do seu cão, não preciso de ouvir absolutamente mais nada para saber quais são as suas prioridades. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Remote Control

Um dos usos de uma coleira de choques eléctricos relaciona-se com o controlo das acções do nosso cão quando este se encontra sem trela. Nomeadamente, no treino da chamada. Um dos grandes problemas quando treinamos os nossos cães a responder à chamada tem a ver com as distracções que, sobretudo na adolescência, tendem a sobrepor-se a qualquer "valor" que esteja associado à chamada do dono. E, ao contrário do que acontece quando o cão tem um comportamento desajustado quando está à trela ou, simplesmente, quando está em casa ou num outro ambiente controlado e limitado, aqui, em campo aberto, é impossível corrigir o comportamento errado. A não ser que usemos uma coleira de controlo remoto. O princípio é básico: o cão, por qualquer razão, não responde à chamada; o dono ministra um choque à distância; o comportamento errado é corrigido e, como tal, tornado menos provável de ocorrer no futuro. 

Aparentemente, a coisa não tem falhas. Independentemente de o choque causar mais ou menos desconforto no cão, podemos sempre argumentar que tudo isso é um mal menor comparado com a eventualidade de o nosso cão ser atropelado ou perder-se. Mas este é um daqueles casos em que tudo começa por uma questão extremamente mal colocada. Na verdade, existe uma enorme petição de princípio a ocorrer aqui. Vejamo-la.

Perguntemos: qual a razão pela qual, para começar, andamos com os nossos cães soltos, sem trela, em campo aberto? Para exercitar e estimular os nossos cães; para eventualmente socializá-los com outros cães; para praticar algumas actividades impossíveis de serem realizadas com trela (frisbee, fetch, etc.).
Ora, todas estas actividades devem ser um fim em si mesmas. Como tal, o cão deve gostar delas; de outra forma, qual o sentido de praticá-las? (nota: os gostos dos cães não são imutáveis e irredutíveis; eles também são ensináveis, apreensíveis, trabalháveis). Se estivermos a promover um jogo de fetch (recobro, busca), partimos do princípio de que houve um período antecedente de aprendizagem do jogo e partimos, também, do princípio de que o nosso cão gosta do jogo. Como tal, ele deverá estar concentrado no jogo de tal forma que todas as distracções exteriores não o demoverão da actividade. Se ele se distrair a ponto de abandonar o jogo, isso significa que o ambiente está longe de ser o ideal e significa que não é seguro praticar tal actividade em tal local. Se não é seguro, não se realiza. Ponto. Procura-se outro local; treina-se mais o cão; não se solta o cão. Estas são as possibilidades. As únicas. A isto chama-se gestão das variáveis ou do ambiente. 
Colocar uma coleira de choques eléctricos no pescoço de um cão é uma acção que parte sempre do princípio de que andar com o nosso cão sem trela é uma inevitabilidade. Como é óbvio, não o é. Em vez de expor o nosso cão a uma liberdade com a qual ele ainda não sabe lidar e que o pode colocar em sarilhos, por que não seleccionar melhor as actividades a fazer com os nossos cães e os locais onde realizá-las? Em vez de libertar o cão e, com o pretexto de controlá-lo melhor, acoplar-lhe um instrumento de controlo remoto, por que não começar por ambientes mais seguros e ir, pouco a pouco, reforçando o poder da nossa chamada verbal?
Podemos, eventualmente, nunca chegar ao ponto de conseguir ter um bom controlo verbal do nosso cão em ambientes com grandes distracções, mas quem disse que isso é o objectivo? O objectivo principal de se treinar a chamada do nosso cão não pode ser outro que não o de fortalecer o vínculo que nos une. Se, eventualmente, nunca conseguirmos ter um cão confiável em "ambientes competitivos", paciência. Não faz sentido colocar uma coleira de choques no nosso cão só para que possamos pavoneá-lo, sem trela, pelo parque. É preguiça pura; é egocentrismo puro. Se está a considerar usar esta ferramenta para controlar os movimentos do seu cão, reavalie as suas prioridades: passa-se algo de tremendamente perverso na forma como está a constituir a relação com o seu cão. 

(O abacaxi coloca-lhe um exercício, em jeito de trabalho de casa e revisão da matéria dada. À luz do que o caro leitor já sabe acerca de condicionamento clássico e da forma como os cães criam associações directas através desse tipo de condicionamento, pense lá que tipo de lições e que tipo de consequências terão os choques eléctricos que o seu cão sofrerá quando junto de outros cães?)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Buzz

«Desculpe, o que é que o seu cão traz ao pescoço?»
«Ah, é uma coleira de choques.»
«Choques? Tipo quê?... eléctricos?»
«Sim.»
«Isso não soa nada bem.»
«Ah, não, eu só uso no grau mínimo de intensidade.»
«Grau mínimo?»
«Sim, existem vários graus de intensidade, e eu uso no grau mínimo.»
«Então apanha um choque pequeno, é?»
«Nem é bem um choque, é uma pequena vibração. Como a vibração de um telemóvel, sabe?»
«Então, por que não se chama colar de vibrações?»
«Porque se for nos graus mais elevados, aquilo dá um choque, de facto.»
«Mas o senhor só usa no grau mínimo.»
«Sim.»
«Mas há quem use nos graus mais elevados?»
«Err, é possível, mas eu não, eu não.»


Uma grande fábula contemporânea é contada acerca dos colares de choques eléctricos, segundo a qual estes colares apenas realizam uma pequena vibração no pescoço do cão. Se fosse apenas por uma pequena vibração, esse colar nunca realizaria qualquer acção de castigo. Creio que por esta altura já lhe foram apresentadas, aqui pelo Abacaxi, razões suficientes para compreender por que motivos isto não passa de um logro retórico. 
Um choque ministrado para castigar o comportamento errado é uma forma de castigo positivo. Não importa a intensidade: a sua função é fazer associar o comportamento errado a algo desagradável de modo a reduzir as probabilidades de que o cão repita esse mau comportamento. Ora, já se viu que um castigo positivo apenas é eficaz se for realmente aversivo. Se for algo pouco ou nada desagradável para o cão, o castigo positivo não se sobrepõe aos estímulos que levam o cão a ter o comportamento "errado". Por exemplo, o cão encontra-se solto, num parque, e sai do perímetro desejável; o dono ministra um choque por controlo remoto; se este choque for pouco ou nada incómodo, o ímpeto que levou o cão a sair daquele perímetro continua a ser primário e superior em relação a qualquer estímulo contrário. Ou seja, se o cão, em primeiro lugar, saiu dali da zona, terá havido algum estímulo (um cheiro, um cão ao longe, um lago com patos...) que o atraiu; para que o choque ministrado seja correcção "suficiente" para que o cão perca o interesse em sair do perímetro, ele terá de ter uma intensidade maior do que aquela apresentada pelo estímulo referido. 
Numa palavra, pelas leis mais básicas da aprendizagem, o cão apenas vai deixar de realizar um determinado comportamento se as consequências para esse comportamento forem "mais más do que boas"; para isso, quando um dono usa uma coleira de choques, o choque-correctivo terá de se superiorizar ao apelo que o cão sente em fazer um determinado comportamento (aos olhos do dono, indesejável). Ou seja, terá de ser aversivo o suficiente. Não basta uma vibração para dissuadi-lo. Nos casos em que basta uma vibração, então por que raio se recorre à coleira? Se uma vibração é suficiente, isso significa que o grau de distracção do cão não é assim tão grande, nem sequer o estímulo que o está a atrair não é assim tão intenso; logo, bastaria uma simples indicação verbal da parte do dono. Em vez de colocar uma coleira de vibrações no pescoço do nosso cão, por que não investir em reforçar o poder da chamada verbal?

O que me faz mais confusão continua a ser o seguinte: como é que é possível que as pessoas acreditem nesta retórica tão frágil? Como é que é possível que as pessoas caiam no encanto do discurso do "é só uma vibração"? Colocar um colar de choques no pescoço do nosso cão nunca pode ser uma decisão feita à pressa; como tal, eu esperaria que as pessoas pusessem o seu sentido crítico a funcionar antes de fazê-lo; e, se o fizessem, certamente chegariam à conclusão de que uma vibração apenas nunca será suficiente para fazer aquilo que a nossa voz não consegue. Mas não: as pessoas continuam a não fazer este raciocínio. Por que será?
A justificação para que tanta gente caia neste engodo está, mais uma vez, na perspectiva moralista de conceber um cão. Só isso pode justificar tamanha falta de sentido crítico. Se um colar de choques corrigisse um cão apenas por despoletar uma ligeira vibração, o mundo seria tal que o cão tivesse uma percepção moral das suas acções. De tal forma que a ligeira vibração funcionasse como um "ei, o teu comportamento está errado". Era como se o nosso cão pensasse: "ups, cometi um erro, peço desculpa, peço desculpa". Mas, se assim fosse, não bastaria a voz do dono para dar a entender uma tal mensagem?

Existem tantas coisas erradas nesse processamento de informação que me é custoso sintetizá-las. Aqui vai um esforço nesse sentido:

  1. Não é por um reconhecimento moral do erro que os nossos cães aprendem: é, antes, pelas consequências que os comportamentos têm;
  2. Se as consequências das correcções são menos intensas do que as consequências inerentes ao comportamento, o cão não vai deixar de realizar esse comportamento;
  3. Ou seja, para que um colar de choques faça realmente efeito, ele vai ter de fazer mais qualquer coisa do que ministrar umas simples vibrações;
  4. Qual é o apelo em fazer do nosso cão um carro telecomandado? Se queriam um Niko Turbo Panther, por que razão escolheram um Labrador preto? 
  5. Qual é o apelo em estabelecer uma relação com o nosso cão baseada numa comunicação binária, informática e consumada em vibrações? Se queriam um Galaxy S3, por que razão escolheram um Boxer tigrado?
Mas, então, o que fazer em vez de ministrar choques? A primeira resposta que tenho para dar é: estabeleçam uma relação com o vosso cão. E a melhor forma de estabelecer uma relação com um cão é apostar na educação. Na do cão, mas também na do dono. Só depois de compreendermos melhor o que é um cão é que podemos educá-lo. E, sim, a melhor forma de comunicar com o nosso cão é ensinar-lhe as bases dessa comunicação. E parece-me extremamente boçal basear a nossa comunicação em vibrações e choques à distância. Implique-se na educação do seu cão. Se tiver de corrigi-lo, faça-o honesta e frontalmente. Não há conceito mais detestável do que "a correcção despersonalizada" (sobre isto, dedicarei um curto futuro "post").
Mas, então, o que fazer, em concreto? É-me um pouco constrangedor ter de responder a esta pergunta, porque me parece óbvia a resposta. No entanto, o próprio princípio de que parte o presente texto baseia-se na realidade de que existe uma estranha dificuldade em responder a esta pergunta. Razão pela qual o Abacaxi fará o esforço de lha dar: treine o seu cão. Ponto. Em vez de delegar o comportamento do seu cão a um dispositivo electrónico emissor de choques, eduque o seu cão a gostar de fazer aquilo que pretende que ele faça. De que forma? Quais as alternativas aos choques? Para isso, é preciso ver em que situações surge o recurso à coleira de choques. Só consigo antever três situações nas quais alguém use uma coleira de choques: (i) para controlar o cão à distância (isto é, sem trela), nomeadamente para "treinar" a chamada do cão; (ii) providenciar um castigo despersonalizado, de forma a que um determinado comportamento cesse, sem que o cão associe o castigo ao seu dono, não estragando, assim, a relação; (iii) uso específico de uma coleira anti-latido, de forma a "ensinar" o cão a não ladrar.
Os três próximos "posts" irão abordar estes três "casos", em específico. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Deixa andar, deixa passar


"Ei, grande cão. Adoro Dobermanns. Também tive um, há uns tempos"
"Já morreu, foi?"
"Sim, tivemos de abatê-lo. Teve de ser..."
"Teve?"
"ya, tu sabes, aquela cena deles ficarem malucos, com a idade. Ele já tinha 8 anos...".

Depois de melhor espremida a história, percebeu-se melhor o que é que tinha acontecido, na verdade. O cão era sempre deixado a comer sossegado. E nada se passou... até ao dia em que a mãe deste rapaz passava por perto, deixou cair alguma coisa que caiu nas imediações do prato. Baixou-se para apanhar esse objecto, e o cão... isso mesmo, foi-lhe ao lombo.
A senhora, tão habituada aos oito anos sem preocupações, nem se lembrou de que poderia estar a invadir uma esfera proibida. Não foi capaz, sequer, de vislumbrar qualquer aviso que tivesse eventualmente existido. (Aliás, de um membro de uma família que possui um Dobermann durante 8 anos e ainda acredita num dos mitos mais ridicularizados dos últimos anos, não seria de esperar que fosse capaz de ler sinais de aviso e agressividade de um cão, mas isso é outra história).
Simplesmente se baixou para apanhar o que tinha deixado cair. Na cabeça dela, nem sequer ia tocar no prato. E mesmo que fosse, tanto quanto sabia, o seu cão não era agressivo nem "mau para os donos"...
Acontece que o problema que se designa como "protecção de recursos" (Resource guarding) tem muito pouco a ver com a forma como o cão se comporta no resto da sua vida. Mas não é de Resource guarding que se pretende falar hoje (haverá certamente mais oportunidades para fazê-lo). Pretende-se falar de algo muito mais simples mas também muito mais difícil de desconstruir.

O que é que de errado se passou na história? Certamente que uma grande parte das pessoas se concentrará na crença idiota num mito sem pés nem cabeça como esse que "afecta" a raça Dobermann. Mas o estimado leitor, não, o estimado leitor tem um espírito mais crítico e aguçado. Certamente não lhe terá passado ao lado a questão fundamental: à conta de um outro hábito mitificado, um cão morreu, e se em vez de ter sido um adulto, naquela hora tivesse sido uma criança, esta também poderia ter morrido. Qual hábito? A ideia de que "deixar o cão ser cão" implica uma série de coisas, nomeadamente, não importuná-lo na hora da refeição.
Ideia que se alia a uma outra, contígua: a ideia de que treinar um cão é, muitas das vezes, robotizá-lo, incomodá-lo, stressá-lo. Ainda não consigo reagir com naturalidade quando alguém argumenta que o treino de um cão o prejudica, e que devemos deixar em paz "o coitado do bicho". Uma coisa é olharmos com crivo crítico para a forma como muitos "treinadores" abusam da desculpa da educação para passar o limite do admissível. Outra coisa é defender uma atitude de laissez faire na educação dos nossos cães. A maior parte dos ataques violentos que vemos serem noticiados não provém de um ensino específico no sentido de o cão ser agressivo. Provém, antes, de educações passivas, que reflectem o espírito "naturalista" a que me refiro aqui. Esta ideia de que devemos deixar o cão ser cão (e não um robot) tem consequências drásticas. Consequências que estão espelhadas no diálogo epigráfico deste "post". 
A pergunta que eu gostaria de ver respondida é: "mas o que é isso de deixar o cão ser cão?" A todas estas pessoas que se identificarem nessa ideia, eu lhes contra-respondo: então deixem lá os pobres dos canitos fazerem os seus xixis e cocós pela casa; deixem-nos usar a boca sem limites para comunicarem convosco, afinal, tratam-se de cães; deixem-nos trepar para as vossas pernas e braços e copular com eles. Deixem andar, deixem passar. Ah, concordarão que há limites para esse naturalismo todo, não é verdade? Pronto, então passemos ao segundo passo.
Onde é que esses limites devem ser definidos? O que é que é aceitável e o que não é? E qual a justificação para que uma coisa o seja, mas outra não? O meu conselho: parem com os moralismos que vos atrofiam a mente, e pensem que educar um cão é a forma mais profunda e intensa de nos envolvermos com eles; educar um cão é, também, a forma mais justa que temos de integrá-los num mundo que não é bem o deles. 
E educar um cão é dar-lhe a conhecer as regras deste ser estranho com que convivem; mas é também fazer um esforço para conhecer os vários traços que definem a natureza do cão. Tal investimento na compreensão de uma natureza distinta da nossa fornece-nos um sem número de noções de que não dispomos naturalmente, nem usando o nosso tão afamado bom senso. Não, não basta o bom senso; é preciso mesmo estudarmos, lamento. 
Uma dessas noções de que não dispomos sem nos dedicarmos a estudar e compreender a natureza dos nossos amigos refere-se a esse instinto de protecção e guarda de recursos. Compreender esse instinto implica compreender que ele é natural e, contudo, complexo. O facto de ser natural apenas importa para que percebamos que nenhum cão está a licitar algum tipo de guerra de poderes com os donos quando lhes rosnam perante o prato de comida; no entanto, o facto de ser natural não significa que seja desejável. Morder também é um comportamento natural; ladrar também; isso não significa que deixemos de educar os nossos cães a moderarem esses comportamentos. Numa palavra, o facto de ser natural não impede que seja um problema. Neste caso da protecção e guarda de recursos, o mesmo se aplica. Existem formas de preveni-lo. E existem formas de tratá-lo, quando já é um problema existente. Nenhuma delas implica algum tipo de menosprezo da natureza do cão; nenhuma delas implica qualquer tipo de desconforto, confusão ou perturbação do cão. Pelo contrário, implica que o nosso cão passe a adorar de cada vez que nós nos aproximamos do seu prato quando ele está a comer. É mesmo esse o objectivo. 
Mas ainda há quem insista em deixar andar, em nome da tranquilidade do cão. Caro leitor, pergunto-lhe: qual é o cão que lhe parece mais tranquilo, o cão A que, quando está a comer, rosna a todos que se aproximam dele, ou o cão B, que pouco se incomoda com qualquer aproximação que haja? "ah, mas ninguém tem de se aproximar dele quando ele está a comer". Se o caro leitor se encontra a pensar isto, neste momento, eu perdir-lhe-ei desculpas, mas dir-lhe-ei que isso é uma demagogia tremenda. Conseguirá garantir-me que, nos próximos 12-15 anos, todos os dias, duas vezes por dia, vai garantir que ninguém se vai aproximar do seu cão quando ele estiver a comer? É que estamos a falar num evento que vai ocorrer umas 10950 vezes... Não vai haver crianças em casa, não vai haver nenhuma vez em que seja preciso mexer em algo ali perto do prato do cão? Não vai?, o que é que lhe garante? E mesmo que minta para si próprio e diga que sim, que vai conseguir garantir um tal hercúleo controlo das variáveis possíveis, pergunto-lhe se prefere este nível de constrangimentos prolongados a perder uns diazitos e tornar o seu cão num cão mais tranquilo e estável?
Infelizmente, há quem prefira deixar andar... 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Imagine... novamente

Imagine o caro leitor que tem um cão que apresenta um problema com alguma gravidade: sempre que ele está a comer e alguém se aproxime dele e do seu prato, ele rosna. 
Consciente de que este cenário pode desembocar em algo desagradável ou desastroso no futuro, resolve contactar um profissional para tratar do caso.
Agora imagine que esse profissional (imaginário, claro) confirma as suas suspeitas e lhe diz que não é normal nem desejável que um cão rosne ao seu dono. Imagine ainda que este treinador fictício lhe diz que isso é sinal que o seu cão não o respeita enquanto dono. Imagine.
Depois, em ordem a demonstrar o que é um comportamento desejável de um cão e, possivelmente, demonstrar-lhe qual a postura que deve ter perante o seu cão e perante a situação, este treinador imaginário leva-o até aos seus aposentos, e decide mostra-lhe o ritual da hora de almoço dos seus vários cães. Imagine o leitor que o seu treinador escolhe aquele que é, confessadamente, o seu melhor exemplar de comportamento e de respeito ao dono. Imagine que ele encosta a cabeça ao prato enquanto este exemplar modelo canino toma a sua refeição. Agora imagine que este cão rosna ao seu dono, isto é, ao treinador que acabou de, imaginariamente, contratar e seguir. O cão rosna ao seu dono; este, do alto dos seus conhecimentos e competências profissionais, exerce um correctivo toque no focinho do seu modelo exemplar. No entanto, o cão volta a rosnar e a mostrar os dentes. O dono desse cão (o profissional qualificado) volta a corrigir o comportamento, desta vez apenas com uma vocalização e um gesto manual sem toque. O cão vira o focinho, de forma a evitar contacto visual, e... como estamos a falar de um cenário imaginário, a cena termina ali sem se saber quantas vezes mais houve rosnares e correctivos. 

Quais seriam as conclusões que o estimado e crítico leitor faria das credenciais deste profissional?

a. Ficaria admiradíssimo e rendido perante a capacidade deste treinador em corrigir um mau comportamento apenas com um toque no focinho e uma vocalização? E, como tal, pensaria: "uau, é mesmo este sujeito que quero que trate dos meus cães".

b. chegaria à conclusão de que, quando um cão rosna ao seu próprio dono, isso significa que algo de profundamente errado se passa nessa relação (aliás, havia sido o próprio treinador que lhe havia dito isso em relação a si e à sua relação com o seu cão). E, como tal, pensaria que talvez fosse preferível ter uma segunda opinião (i) de alguém que fosse mais coerente entre aquilo que diz acerca dos seus clientes e aquilo que ele próprio faz com os seus cães; (ii) de alguém que, tendo tido ou não o mesmo problema com algum dos seus cães, já o tivesse resolvido há muito, afinal de contas, tratar-se-ia de um profissional; (iii) estipulasse um plano de tratamento que fizesse com que o cão deixasse, pura e simplesmente, de rosnar ou mostrar qualquer tipo de sinais de desconforto, e não, simplesmente, um plano de tratamento que lhe dissesse de que forma é que deveria corrigir o seu cão sempre que ele lhe rosnasse...


Qual seria a opção escolhida pelo estimado leitor, qual seria?