domingo, 4 de agosto de 2013

Centrão, quarta parte


«Se quisermos um verdadeiro cão obediente e equilibrado, não basta ensinar-lhe comandos e comportamentos; temos de nos afirmar como o líder da matilha; o nosso cão tem de nos ver como o seu líder.»
«Mas, se quando eu digo "senta", ele senta, e quando eu digo "aqui", ele vem, isso não significa já que o meu cão responde aos meus pedidos?»
«Errr, sim, ou melhor, ..., não. Na verdade ele pode só estar a responder por interesse. Convém que, paralelamente, se estabeleça uma hierarquia bem definida em que o dono se assuma como líder alfa»
«Mas se ele responde aos meus comandos, como é que o meu cão poderá achar que está acima de mim na hierarquia?»
«Ele pode não responder em outras situações.»
«E não deveríamos treinar também essas situações de modo a que ele passe a responder também nessas?»
«Sim, mas ele só vai responder verdadeiramente se nos reconhecer com líder.»
«Então, ele reconhece-me como líder nas coisas em que me responde, mas não me reconhece nas coisas a que não responde? Isso não significa apenas que houve coisas que já treinámos e outras que não?»
«Como assim?»
«Se o meu cão responde quando eu digo "senta", isso não significa que ele já me reconhece como líder?»
«Não, se ele responder apenas por interesse.»
«Então, se não é por interesse, de que outro modo é que o meu cão deve responder aos meus pedidos? Pela força?»
«Não, não! Um verdadeiro líder nunca ou raramente usa a força.»
«Então usa o quê?»
«Respeito.»
«Ah, então todas essas estranguladoras são para... impor respeito?»
«Err, sim, se necessário.»
«Estou a ver, estou a ver. Mas então que passos concretos é que temos de dar para nos afirmarmos como líder.»
«Ouça lá, quem é o especialista, aqui? Quer o senhor queira, quer não, os cães têm necessidade de viver numa estrutura na qual exista um líder; se nós não nos assumirmos como o líder, assumem os cães.»
«Bom, não vamos perder tempo. O que é que vamos fazer hoje?»
«Vamos trabalhar a chamada...»

  • Treino vs. comportamento equilibrado
A meu ver, hoje irá ser abordado um dos maiores e mais melindrosos mitos que se tem espalhado pelas cabeças de quem se envolve na educação dos seus cães. É extraordinariamente comum ouvirem-se diálogos como o da epígrafe deste texto. É muito frequente ouvirmos pessoas a dizer coisas como "Oh, não quero que o meu cão saiba uma série de coisas, não quero ensinar-lhe uma bateria de comandos e truques. O que quero é que ele se comporte bem e que me respeite". 
É um facto que existem vários cães que têm um conjunto significativo de truques e comportamentos complexos no seu repertório, mas que, em contrapartida, acumulam alguns problemas comportamentais. Não são poucos os cães com forte desempenho em obediência competitiva e com problemas como, por exemplo, ansiedade por separação; cães que intercalam sessões inteiras de resposta a pedidos de comportamentos complexos com demonstrações de agressividade perante outros cães. Isto é bem verdade. Mas não podemos tomar estes factos como premissas para concluir que treinar um cão é coisa distinta de dar estrutura e equilíbrio ao seu comportamento. Numa palavra, há uma ideia muito enraizada de que uma coisa é ensinar o cão a sentar, a deitar e a dar a patinha, e outra bem diferente é ter um cão que respeite o dono quanto dono, e que se saiba comportar em casa e na rua. 
Trata-se de uma ideia tanto mais enraizada que ela é não é apenas difundida por entre os comuns donos de cães. Não; ela é também difundida por especialistas de comportamento, por treinadores profissionais. Tal ideia chega mesmo a ser o slogan de alguns destes profissionais. O objectivo de hoje do Abacaxi é desconstruir esta ideia desde a sua base; demonstrar o seu ridículo e a sua falta de fundamentação: numa palavra, o objectivo é esclarecer, do modo mais definitivo possível, em que é que consiste o treino de cães e o quão importante e insubstituível ele é para que a relação dos cães com os seus donos seja a melhor possível.
Voltemos ao texto de que nos temos servido para exemplificar os princípios da ideologia do meio-termo no treino de cães. Nesse texto, Ed Frawley escreve uma frase que se torna bastante emblemática acerca da forma como o próprio encara a educação de cães: «A maioria dos problemas comportamentais surge como resultado de uma fraca estrutura de matilha no ambiente em que o cão vive. Por essa razão, nós dizemos às pessoas que treino de obediência representa apenas 25% da solução para corrigir problemas comportamentais, e 75% da solução tem a ver com o estabelecimento de uma sã estrutura de matilha». Não importa tanto notar qual o relevo e quais os valores que Ed Frawley concede ao treino e à estrutura de matilha; o que importa é que é feita uma separação entre as duas coisa. Conforme veremos de seguida, não existem duas coisas. Tudo é uma questão de treino, e treino é educação. Toda a história de um estabelecimento de hierarquia estrutural é uma invenção, uma grande invenção. Vejamos aquilo em que Ed Frawley baseia a sua ideia de estabelecimento de uma estrutura de matilha, e veremos se existem ou não razões para fazer uma distinção entre isso e o treino de cães.

Diz Ed que, «quando a pergunta se relaciona com a forma de criar um vínculo, ganhar respeito e ser capaz de manter a liderança em relação aos nossos cães, a resposta é ter a certeza de que o cão compreende que nós seremos sempre justos para com ele. Assim sendo, o cão tem a responsabilidade de responder perante coisas que já conhece, e, se ele recusar, irá haver consequências».
Bom. Isto não se difere em nada do princípio básico do treino de cães. Pode haver alguma variação nos termos escolhidos (eu, por exemplo, preferiria não usar "recusa" ou mesmo "responsabilidade") , mas, em termos basilares, esta é uma forma de definir o princípio básico do treino: não esperar coisas que ainda não ensinámos; providenciar consequências ajustadas para o comportamento ocorrido. Isto é treino. Ponto. Até aqui, ainda não se vê qualquer razão para distinguir treino de estabelecimento de liderança e respeito. Até aqui, a coisa parece ser uma e uma só. Mas pode ser que mais para a frente haja uma distinção real das coisas. Vejamos.

«Ao longo da experiência ganha em treino, nós demonstramos ao cão que apenas vamos pedir-lhe coisas que ele saiba fazer. Quando ele faz algo correctamente, nós fazemos sempre algo de bom para eles. Da mesma forma, quando ele faz algo incorrecto, nós deixamos-lhe SEMPRE claro que ele cometeu um erro».
Hm, pois, continuamos no mesmo ponto. Isto não é outra coisa senão treino. Pura e simplesmente treino. Aprender segundo as consequências é a ideia mais básica da lei da aprendizagem, fundada nos princípios do condicionamento operante. Usar esses princípios para ensinar o nosso cão alguma coisa (seja 'sentar', 'ladrar', 'dar a pata', subir ou descer do sofá, esperar pela comida, não saltar para as visitas, qualquer coisa) é treino. Não adianta vestir a coisa de palavras diferentes, chamar-lhe estrutura de matilha ou o diabo a quatro. Isto é treino. Ponto. Até agora, ainda não há razões para criar qualquer tipo de folclore em torno de uma figura mitificada - o dono alfa. Mas pode ser que ainda haja. Continuemos em busca desses princípios concretos que justifiquem a existência dessa estrutura de matilha e desse líder da matilha.

«O cão deve aprender que nós somos 100% consistentes na forma e no momento em que administramos correcções. Ser consistentes a toda a hora é uma das componentes mais importantes de se ser um líder da matilha. Por exemplo, nós não podemos ignorar um comportamento agressivo perante um convidado em nossa casa e, depois, corrigir o nosso cão quando ele for agressivo durante um passeio.» Ou seja, temos de providenciar sempre o mesmo tipo de consequências para o mesmo tipo de comportamentos. De outra forma, o nosso cão terá mais dificuldades em compreender o que esperamos dele; terá mais dificuldades em compreender-nos. Mais uma vez, estamos perante um princípio básico de treino. Um bom treinador sabe que deve controlar as consequências dos comportamentos dos cães de modo a agilizar a sua aprendizagem. Consequências distintas para o mesmo comportamento fazem emperrar a aprendizagem, a educação e a comunicação do nosso cão. Isto é, pura e simplesmente, uma questão de treino. Continua a não haver razões para criar uma realidade paralela ao treino, pois o treino continua a compreender esta esfera da aprendizagem e do comportamento canino. Será que haverá alguma razão para aceitarmos a divisão feita inicialmente? Continuemos na nossa demanda.

Ed Frawley continua: «Durante praticamente toda a minha vida de adulto eu treinei cães de protecção e cães de serviço policial. Comecei a estudar trabalho de protecção em 1974. Os meus cães aprenderam que a única altura em que lhes era permitido ser agressivos era quando eu lhes dizia que tal era OK ou quando eu era atacado. Ao longo do meu treino, isto tornava-se muito claro para o cão». Esta nem necessitaria de comentário. É uma questão de treino, e pronto. Não era por assumir algum tipo de postura física que os cães sabiam quando e como atacar; não era por emanação de alguma energia etérea; não era porque o dono comia primeiro do que os cães; não era porque Ed e seus cães jogavam ao sério e Ed ganhava sempre. Não. A razão pela qual os cães aprendiam tal valiosa lição advinha pura e simplesmente do treino específico desse comportamento, apoiado, claro, no treino anterior de outros comportamentos, que é como quem diz, apoiado na relação de comunicação e interacção que o treino prévio criou e fortaleceu.

«Se estudar comportamento de matilha, ou mesmo comportamento de pastoreio, verá que os problemas relacionados com a matilha são lidados de forma muito subtil ou passiva, mas o desrespeito é lidado de forma muito rápida e agressiva. O mesmo deve acontecer numa relação com um cão.» Esta é uma ideia extremamente desconjuntada. Em primeiro lugar, Ed parece sugerir que lidemos de forma agressiva com um problema de "desrespeito" do nosso cão, o que colide violentamente com alguns dos preceitos que encontramos no resto do conjunto de princípios que fundam o sistema de treino e educação de cães da Leerburg. Em segundo lugar, não se percebe bem a diferença entre "problemas relacionados com matilha" e "desrespeito". O fundamento que legitima a existência de uma estrutura de matilha não se prende com a estipulação de uma hierarquia? Então, um "problema de matilha" não será, justamente, um problema na harmonia da hierarquia criada? Qual é a diferença entre tal "problema" e um problema de "desrespeito"?
Em terceiro lugar, e mais importante de tudo: aquilo a que Ed Frawley denomina "desrespeito", à luz do que escreveu no seu texto, só pode ser interpretado como "incumprimento de uma indicação dada". Ou seja, desrespeito é quando um comando não é seguido, quando uma indicação não é respondida convenientemente. Isto são problemas que surgem durante o treino. Têm a ver com a forma como as consequências estão a ser geridas; tem a ver com a existência de distracções demasiado fortes para que a indicação seja cumprida; etc. Tem tudo a ver com treino, e nada a ver com desrespeito de uma pretensa hierarquia. Se vamos optar por adicionar pressão para que o cão responda (isto é, definir consequências mais aversivas para o mau comportamento) ou se vamos optar por uma estratégia de reforço mais acentuado dos comportamentos desejados, isso é uma escolha que se faz dentro do universo do treino, e tem a ver com a forma como cada um se posiciona dentro desse universo. Mas uma coisa é absolutamente certa: tudo passa por um ajuste no tipo de consequências fornecidas para um determinado comportamento, tudo passa por uma redefinição do ambiente e das variáveis; nada se passa por uma questão de simples imposição de autoridade e respeito ou desrespeito desta. Tal como o próprio Ed Frawley admite, «os cães não fazem coisas para que nós nos sintamos bem; eles fazem as coisas que lhes fazem sentir-se bem». Ora, compete a cada um de nós fazer com que as coisas que fazem os nossos cães sentir-se bem coincidam com as coisas que nos fazem sentir bem também. Compete-nos gerir, criar e canalizar a motivação dos nossos cães. Isto é treinar. Isto é educar. De modo genérico, há duas vias de fazer isto (embora, dentro de cada via, haja toda uma multiplicidade de formas de fazê-lo). Duas, não mais. Uma terceira via, ao meio, é uma invenção e uma ilusão; como tal, necessita de outras invenções ilusórias para se justificar. É invenção e é ilusória toda a história que se conta de uma estrutura de matilha e do papel de líder de matilha que temos de assumir.

Não só é ilusória, como também é perigosa. «Treinadores [e donos] inexperientes precisam lembrar-se de que um cão aprende por repetição. Muitas vezes, são precisas 30 repetições para que um cão aprenda um novo comando. Os treinadores [e donos] são frequentemente culpados de pensar que o seu cão compreende um comando quando, na verdade, eles não repetiram o exercício vezes suficientes para que o cão compreendesse o verdadeiro significado daquilo que esperam do cão. Isto resulta em donos [e treinadores] corrigirem injustamente alguma coisa que o seu cão não compreendeu por completo». 
Toda esta coisa das repetições e da consolidação e generalização de um comportamento tem a ver, única e exclusivamente, com treino. A ideia de que nos devemos tornar "líderes da matilha" só provoca uma ilusão perigosa de que o nosso cão deve comportar-se correctamente por respeito ao seu líder. Quando um cão se "recusa" (chamemos-lhe assim) a sentar durante um passeio, frequentemente ouvimos o diagnóstico: "pois é, está a desrespeitar o dono; ele não o vê como líder da matilha, meu caro". Quando um cachorro de quatro meses mordisca as mãos do dono, claro, "não está a reconhecer o dono como seu líder". E por aí fora. Ora, a ideia de se fundar uma estrutura de matilha e firmar-se o dono como líder dessa matilha é uma forma extremamente apetecível para alimentar a preguiça de passar à frente as trinta repetições e menosprezar o engenho de levar o cão a compreender o que esperamos dele. Quando um cão não responde a um comportamento, ou quando tem um mau comportamento, simplesmente esse comportamento não foi devidamente ensinado e exercitado. Mas claro que é mais fácil dizer-se que o dono não está a ser um verdadeiro líder da matilha. É fácil, mas também é perigoso. Ed Frawley está perfeitamente consciente deste perigo. Daí que chame a atenção para o facto de que um verdadeiro líder não apoiará a comunicação com o seu cão nessa liderança; um verdadeiro líder terá de percorrer os passos todos exigidos pelo treino.
Mas a pergunta que se faz é: se o tal líder da matilha tem de percorrer todos os passos do treino do seu cão, por que razão é que o treino do cão é 25% da educação, apenas? Por que razão se separam as duas coisas? Ou melhor, por que razão se reifica a existência de algo cuja razão de existir continua a não ser clara? Por que razão se dá tanto ênfase à estrutura da matilha e à constituição do dono como líder dessa estrutura, se, dê por onde der, tudo vai desaguar à questão do treino?

A resposta é simples: grande parte das pessoas interpreta o treino de cães como o ensino de um grupo finito de comportamentos. Grupo do qual não fazem parte problemas comportamentais como agressividade. É comum ouvirmos dizer que ensinar a sentar e a responder à chamada são questões de treino, mas resolver a agressividade é uma questão de reabilitação. Numa palavra, existe uma ideia generalizada de que treino é uma parte restrita do comportamento dos cães e da nossa relação com eles. Toda uma outra parte, mais importante, pois claro, já não faria parte da esfera do treino; tudo o resto já faria parte da própria essência da relação do dono com o seu cão. E quis "o destino" que a maior parte das pessoas definisse essa essência numa perspectiva de liderança. Daí que surjam, como cogumelos, os discursos da estrutura da matilha, e afins. Só que, sempre que alguém tenta consolidar um tal discurso, os seus fundamentos vão sempre dar a questões que se relacionam com o treino. SEMPRE. Os dois pólos opostos da metodologia de treino de cães têm várias coisas a separá-los, mas ambos parecem conscientes de que educar um cão é treiná-lo, e treinar um cão é educá-lo. Não há energias, estruturas de matilha, posturas mágicas, encantamentos. O que há é comunicação e ensino. Mútuo. O meio-termo do treino canino também sabe desta verdade, mas, para justificar a sua existência, acaba por criar um dogma apelativo à comunidade de donos de cães. O dogma de que treinar cães é algo completamente restrito e limitado, quando comparado com o resto que se passa numa relação entre cão e seu dono.
O curioso é que, apesar de este dogma ser extremamente frágil nos seus fundamentos (como espero que tenha ficado explícito ao longo deste texto), ele continua a imperar e a ganhar adeptos. Fica sempre bem ficarmos numa posição moderada. Faz-nos parecer menos dogmáticos. Mesmo que o sejamos mais do que todos os outros...



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Centrão, terceira parte

(continuação)

  • Matilha e antropomorfização

Um outro traço muito presente nos cultores da ideologia do meio-termo consiste na estipulação da relação entre cão e seu dono como sendo estritamente hierárquica. Como tal, a promoção do dono como elemento ascendente nessa hierarquia será o passo mais importante para que todo o comportamento do cão se adeque às expectativas da família.
O texto que explana a "filosofia" de treino de Ed Frawley não poderia escapar a esta tendência. A terceira parte do texto (os pontos "Dogs are pack animals..." e "How to build respect and leadership") dedica-se a abordar uma pretensa constituição essencial do cão como animal de matilha e a estipular a forma de o dono conquistar a posição de topo nessa matilha.
Um dos problemas que Ed Frawley aponta é a constante antropomorfização que muitos donos fazem dos seus cães. Aliás, essa é uma crítica muito em voga, desde há uns anos. De facto, antropomorfizar o nosso cão é uma das formas mais rápidas de encomendar problemas na relação. Existem várias formas de antropormorfizar a espécie canina, mas todas elas, mais ou menos directamente, têm a ver com um revestimento moral dos nossos cães. Jean Donaldson ataca esta questão melhor do que ninguém: a nossa «visão distorcida dos cães é uma forma perversa de medir o quanto nós gostamos deles. Nós queremos que eles sejam espertos, moralmente "bons". (...) A nossa compaixão e consideração por outros seres está fortemente correlacionada com a nossa percepção do quão similares eles são de nós mesmos...». Ora, tendemos a antropomorfizá-los para sustentar e legitimar o quanto nós gostamos deles. São frequentes os artigos e estudos que tentam demonstrar o quanto os nossos cães são parecidos connosco. É como se procurássemos ver o máximo de traços em comum entre homens e cães. Travamos uma relação com uma outra espécie, e, em vez de procurarmos um enriquecimento proveniente de uma diferença essencial, andamos constantemente a descortinar humanidade nos cães e "canidade" nos homens. Quando alguém diz "quanto mais conheço os humanos, mais gosto dos animais", essa pessoa está a avaliar os animais em função de uma falha moral humana; os cães, espécie a quem este tipo de expressão é mais endereçada, são sempre avaliados em função de uma medida humana. "Olhe, olhe para aquilo, são tão bonitos... só lhes falta falar".
Antropomorfizar ou humanizar os cães é, de facto, uma razão forte para a criação de problemas. O que é curioso é que uma das formas de antropomorfizar cães consiste em defini-los como seres hierárquicos e, sobretudo, definir as regras e as determinações de tal hierarquia à luz das hierarquias humanas. A forma como muitos, hoje, se tentam demarcar de uma humanização dos cães é bastante irónica. Ridiculamente irónica. Para evitar tratar os cães como pessoas, transformam-se as pessoas em cães. A família lá de casa, que, até à chegada do cão, era uma família normal, humana, composta por pessoas, pai, mãe, filho, filha, essa mesma família, à chegada do seu novo elemento de quatro patas, transforma-se: deixa de ser família e passa a ser matilha. É frequente ouvirmos que todos os cães vêm as pessoas lá de casa como membros da sua matilha. Não vamos questionar esta afirmação; vamos fingir que ela é inquestionável e que corresponde à verdade. Ora, quando os nossos cachorros chegam a nossa casa, a nossa missão é dar-lhes a conhecer novas regras, dizer-lhes quais são os comportamentos admissíveis e quais aqueles que não o são. Se ele interage maioritariamente com os dentes, compete aos membros lá de casa dizer-lhe que existem outras formas de interagir e que tem de ter cuidado com os dentes, pois "nós não somos cães". Se o cão nos vê como elementos de matilha, não seria lógico que a nossa função fosse ensinar-lhe que, enquanto humanos, nós não formamos matilhas, mas famílias, e não temos hábitos caninos, mas humanos? Parece que talvez este pensamento não seja tão evidente assim, pois tanta e tanta gente opta por assumir que, daí em diante, a sua família será uma matilha. O raciocínio é: se o nosso cão nos vê como membros da matilha, temos de agir como uma, e temos de assumir o papel de líder da matilha. Se o objectivo é ser-se líder e fazer do cão um seguidor, não é extremamente perverso e irónico que determinemos o tipo de grupo que vamos formar em função do membro que se pretende ser o seguidor? Não é altamente risível que, com o objectivo de se colocar o cão no patamar mais baixo da hierarquia, o grupo que outrora fora uma família passe a ser uma matilha? Não é, enfim, altamente absurdo ambicionar formar uma matilha para que o único membro verdadeiramente canino seja o elemento mais inferior da hierarquia? 
Como é óbvio, tudo isto é retórica. Nenhuma família se transforma em matilha. A única razão pela qual se fala em estrutura de matilha é para legitimar uma série de procedimentos que, de outra forma, pareceriam pouco justificáveis. Procedimentos acompanhados do habitual "era o que a mãe do cachorro faria...". Os procedimentos, esses, continuam a ser única e exclusivamente humanos. Nenhum membro de uma matilha ou alcateia passeia outros membros numa trela. Numa matilha não se vestem roupas diferentes todos os dias; não se marcha ou trota em posição bípede; não se manda sentar, deitar, rebolar uns aos outros. Esta história da estrutura da matilha é retórica da mais vaga e inconsistente que podemos imaginar. Quem é que, verdadeiramente, age como um cão perante o seu cão?
É claro que, para sustentar uma ideia que é essencialmente inconsistente, o discurso correspondente não pode escapar a tal inconsistência, também ele. Veja-se o texto de Ed Frawley. Por um lado, sublinha o aspecto central da sua "filosofia" de treino: «Cães domésticos olham para a família com que vivem como a sua matilha. Se os humanos não se tornarem líderes da matilha, os seus cães vão avançar e assumir esse papel». Ora, é como se houvesse uma espécie de necessidade estrutural que exige que um líder se afirme; se não for um humano, será o cão. Tudo a bem da estrutura de matilha. É como se o cão até nem quisesse muito ser o líder, mas, como ninguém se assume, lá terá de ser ele. Bom. Por outro lado, Ed Frawley acaba por admitir que «os cães vêm a vida em termos de preto e branco, (...) vêm a vida em termos de "coisas que são boas para eles" e "coisas que não são boas para eles". (...) a força motriz na vida de um cão é o seu desejo de fazer coisas que os façam sentir-se bem. Os cães nunca fazem coisas para fazer com que o dono se sinta bem, eles fazem coisas que os fazem sentir-se bem». Ora, se fazem as coisas para se sentir bem, pouco se estarão importando com uma pretensa estrutura de matilha. E pouco interesse teriam em ter de assumir liderança perante uma matilha de bípedes com hábitos muito diferentes dos seus... Como conjugar esse carácter oportunista dos cães com uma necessidade intrínseca em pertencer a uma hierarquia normalizada e moralmente estruturada? Como harmonizar a ideia de que «os cães nunca fazem nada para agradar aos donos» com a ideia de que o imperativo número um na educação dos nossos cães é estabelecermo-nos como líderes do nosso cão? Pois claro, não há nenhuma conjugação possível. Qual é a necessidade de formarmos uma hierarquia de matilha e estabelecermo-nos como seu líder se admitimos que o cão não faz nada para agradar esse mesmo líder, e apenas faz as coisas que o façam sentir-se bem? Porque o líder pode providenciar más consequências para o comportamento do cão e, assim, controlar a acção deste? Mas isso é uma da componentes do treino de cães; não é necessário qualquer recurso a ideias mais ou menos elaboradas acerca de estruturas de matilhas e lideranças alfa. Tudo isto se trata apenas de mais uma inconsistência discursiva que é decorrente da inconsistência de ideias em que este discurso se apoia.
O grande problema deste discurso é que estabelece como pressuposto e axiomático um princípio altamente problemático, um princípio que é altamente problematizável na sua forma e na sua constituição. O grande problema é partir-se de um pressuposto inquestionável de que numa relação entre um homem e um cão se define, automaticamente, uma estrutura de matilha, e que toda uma série de problemas surgem quando o elemento humano do conjunto falha em reconhecer essa estrutura automática. Este é o tipo de princípios que não se adquire com a experiência. Existem duas formas de lidar com este tipo de princípios: (i) questioná-los criticamente e remetê-los para os enunciados fornecidos pela(s) ciência(s) que estuda(m) o tema; ou (ii) acreditar neles religiosamente e assumi-los como dogmas da nossa prática. Não tenho grandes problemas com a segunda via; por muito que nos custe admiti-lo, este é um procedimento que rege uma parte significativa da nossa vida. O problema é que, quando se opta por uma tal via e quando, ao mesmo tempo, se tenta erigir todo um sistema de processos e práticas que se fundam na ciência do comportamento e da aprendizagem, as incoerências vão começar a aparecer como cogumelos. Alguns deles bem tóxicos para o resto do sistema...

(continua...)


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Centrão, segunda parte

(continuação)

  • Três categorias de treinadores

Numa segunda parte do seu texto, Ed Frawley faz uma distinção dos três categorias de treinadores que, segundo ele, existem. Os que treinam os seus cães com base em recompensas; os que treinam os seus cães com base em castigos; e os que treinam os seus cães com base em recompensas e em castigos. A grande questão é que, para Ed Frawley, os membros da primeira categoria apenas usam recompensas e os da segunda categoria apenas usam castigos. A virtude estaria, pois claro, na posição intermédia, representada na terceira categoria, que usaria tanto as recompensas quanto os castigos.
Vamos ver de que forma Ed Frawley define estas categorias.

A primeira categoria diz respeito aos treinadores que, segundo ele, «suplicam ou subornam e conduzem os seus cães a fazer alguma coisa ao oferecer comida ou um brinquedo». «Não me interpretem mal, continua Ed, eu também uso comida e brinquedos em treino, mas também uso distracções e correcções. As pessoas nesta categoria não usam nem distracções nem correcções.» Bastar-me-á apenas esta definição para demonstrar o erro de princípio que Ed Frawley comete. 
Em primeiro lugar, nenhum treinador, seja lá de que categoria for, ignora que se devam usar distracções para fortalecer um comportamento. Nenhum. Apenas donos inexperientes acham que quando um cão segue o comando 'senta' na cozinha, ele falo-á de igual forma no parque com dez cães à volta. Um treinador sabe que isto não se passa assim. Dizer que os treinadores que se baseiam em recompensas não usam distracções é uma mentira muito conveniente para desacreditá-los.
Em segundo lugar, nenhum treinador no mundo usa apenas recompensas. Mesmo que não queira ou que disso não tenha consciência, um treinador que esteja a usar reforço positivo terá de usar também castigo negativo, para evitar que comportamentos concorrentes (e indesejados) sejam também reforçados. Usar uma trela é estar pronto para usar castigo negativo quando necessário (sem recurso a esticões, porque isso já será castigo positivo). Dizer que os treinadores que se baseiam em recompensas não usam correcções é uma mentira muito conveniente para desacreditá-los.
Em terceiro lugar, usar comida ou brinquedos como forma de recompensar comportamentos não é, não pode ser uma forma de suborno. Para colocá-lo de forma simples: quando usamos comida como forma de suborno, estamos a fazê-lo mal. Ora, repare bem o estimado leitor que para Ed Frawley o problema não está em distinguir um bom uso de um mau uso de comida ou de brinquedos; para Ed, qualquer uso de comida e brinquedos é uma forma de suborno. E o próprio Ed admite que usa comida e brinquedos no treino. Logo, está a admitir que usa formas de suborno. E, para contornar essa fase de suborno, Ed Frawley vai compensar a balança ao usar também "distracções e correcções". Ed Frawley apenas defende a necessidade de correcções e castigos porque o uso de recompensas é, por essência e definição, uma forma de suborno. Se Ed soubesse, ou admitisse, que o uso de formas de reforço positivo não são formas de suborno; se soubesse ou admitisse que reforço positivo implica criar um historial de boas consequências para um determinado comportamento de modo a que este comportamento se torne cada vez mais frequente, sólido e reforçante em si mesmo; então teria muitas mais dificuldades em justificar as razões pelas quais esta categoria de treinadores peca por defeito. 

A segunda categoria diz respeito a treinadores que, segundo Ed, «intimidam e forçam os seus cães para fazerem o que os donos querem que eles façam». Ed denomina este tipo de treinadores como sendo treinadores do esticão e da cedência (yank and crank trainers), e toma como seu modelo William Koehler. (Uma nota de curiosidade: William Koehler tem mais anos de experiência do que o próprio Ed Frawley; o que é que isto diz do argumento da experiência como princípio de um bom treino? Claro, os anos de experiência não podem ser fundamento da qualidade nem do tipo de treino. Fim de nota.)
Uma vez mais, existem aqui erros de base. Nomeadamente dois.
Em primeiro lugar, nenhum treinador usa apenas castigos e correcções. Por definição, os castigos positivos só funcionam se agregados a um reforço negativo. Existe sempre a recompensa do fim do castigo positivo. No mais, qualquer treinador da "escola" William Koehler usa uma (pretensa) forma de reforço positivo: o elogio. Faz parte de qualquer compêndio de treino tradicional e focado nas correcções proferir palavras de elogio quando o cão "acerta". Se os elogios funcionam como forma efectiva de reforço positivo ou de motivação, isso já é outra questão (o próprio Ed Frawley tem uma apurada e perspicaz visão acerca do assunto, aqui e aqui). A questão é que, segundo a lógica dos "yank and crank trainers", existe espaço para algo mais do que simplesmente correcções; existe espaço para assinalar o bom comportamento. 
Em segundo lugar, o mais importante. Repare o estimado leitor que aquilo que Ed Frawley rejeita nesta categoria não é o tipo de correcções que é feito. Para Ed, o problema não está numa distinção entre boas e más formas de correcção. Para Ed, qualquer uso de correcções é uma forma de forçar os cães a realizarem um comportamento. O erro que Ed distingue nesta categoria de treinadores é focarem-se exclusivamente nas correcções e esquecerem-se da componente recompensadora. 

Aquilo que podemos concluir das definições que Ed Frawley faz destas duas categorias de treinadores é a seguinte: o problema não está no uso da comida e de brinquedos como suborno; o problema não está no tipo forçado e intimidante das correcções: o problema está no uso exclusivo de uma das duas partes. Aquilo que Ed Frawley pretende é um uso combinado daquelas duas categorias. A terceira categoria de treinadores situa-se no meio-termo. Segundo palavras do líder da Leerburg, a terceira categoria «é formada por treinadores que pretendem estar no meio das outras duas categorias». Ed Frawley prossegue, dizendo que tais treinadores «se equilibram no meio, mas estão sempre preparados para se moverem para um lado ou para o outro dependendo daquilo que se estiver a passar num determinado momento do treino do cão».
Ora bem, juntando todas as pontas destas definições, Ed Frawley defende uma categoria de treinadores que balancem entre subornar o cão e intimidar ou forçar o cão. Não se está aqui a fazer qualquer exercício especulativo ou deturpador. Se Ed Frawley define a primeira categoria como aquela que "suplica aos seus cães por um comportamento, e suborna-os para os obter"; se define a segunda categoria como aquela que "intimida e força os cães para obter um comportamento", e se, por fim, define uma terceira categoria (na qual ele se insere) como aquela que "balança entra a primeira categoria e a segunda categoria para aplicar o mais adequado à fase específica do treino", então, aquilo que Ed Frawley está a defender é, simples e literalmente: "oscilar entre subornar o cão ou forçar o cão".
Estou certo de que o estimado leitor se recordará do que foi dito no texto anterior acerca das ideologias do meio-termo: de tanto seleccionar ou peneirar o que de melhor há nos extremos, o meio-termo fica apenas com os restos. Ou seja, o meio-termo, por se definir como posição equilibrada entre dois extremos, fica sempre com aquilo que acaba por criticar nesses dois extremos.
Se Ed Frawley quiser defender que não é isso que pretende; se quiser defender que não pretende nem subornar cães nem intimidá-los, então terá de redefinir a forma como descreveu as duas primeiras categorias de treino. Tenho é a impressão que uma tal redefinição iria tornar a terceira categoria absolutamente desnecessária.

(continua...)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Centrão, primeira parte


"Um dos grandes problemas dos treinadores de cães é que, normalmente, são muito incompletos. Ora usam apenas castigos e esquecem-se das recompensas; ora usam apenas recompensas e esquecem-se dos castigos. O segredo está em dosear ambas as coisas e encontrar o ponto de equilíbrio. O segredo é dominar ambos os mundos para encontrar o difícil balanceamento entre eles."

Ora, uma vez mais, o moralismo! Discursos como este colhem e captam audiência justamente por apelarem ao moralismo que habita em todos nós e que nos diz, por defeito, que "no meio é que está a virtude". Uma pessoa pode não saber absolutamente nada sobre um determinado assunto, mas a sua inclinação natural é para se posicionar no meio, numa posição intermédia: "Pelo sim, pelo não, fico-me pelo meio... exponho-me menos e ainda dou ares de prudência e abertura de espírito."  É parte constitutiva da nossa natureza colocarmo-nos numa posição de meio termo. A maior parte das pessoas que não se envolve nem estuda muito acerca de ideologia política tem sempre uma posição moderada; pode ser mais de esquerda ou de direita, mas apressa-se sempre a dizer que não gosta nada de extremismos. Parte da nossa forma de nos mostrarmos seres compreensivos e eclécticos passa por aparentar uma posição de abertura para aceitar argumentos das duas partes, e peneirar o melhor de cada uma para formar uma pretensa super-posição constituída apenas pelo melhor de dois mundos.
A estratégia do meio-termo começa por estipular uma realidade maniqueísta, uma realidade formada por dois pólos opostos, e dois pólos apenas. O segundo passo consiste em evidenciar os pontos fortes e fracos de cada uma das partes. E o terceiro passo consiste, finalmente, em fundar uma terceira via, ao centro, que reúna o que de melhor há nas duas partes opostas e que descarte o pior.
Os problemas desta estratégia são vários: em primeiro lugar, raras são as realidades constituídas apenas por dois pólos; cada um desses pretensos pólos é constituído por diferenças internas que fragmentam a realidade em muito mais do que duas simples realidades opostas; em segundo lugar, os pontos fortes de duas posições contrárias raramente são compatíveis, pelo que é apenas estratégia discursiva e ilusória dizer-se que existe uma terceira via que reúne o melhor de dois mundos; em terceiro lugar, uma posição centralista raramente acolhe o melhor das posições polares; ao contrário, de tanto peneirar, aquilo que é acolhido pelo centrão é, invariavelmente, o que sobra dos pólos. Uma verdadeira via alternativa, uma verdadeira terceira via nunca opta pelo meio termo; ao invés de se agarrar ao que já há e seleccionar o que lhe convém, uma verdadeira nova via inaugura novas possibilidades. Em quarto e último lugar, uma posição centralista pode ser tão ou mais ideológica e dogmática quanto as posições polarizadas. O centrão é isso mesmo: uma ideologia do meio-termo, cujo fundamento principal é o de fazer-se passar por eclético e moderado quando, na verdade, defende as suas posições de forma tão dogmática quanto as posições extremistas.
Por todas estas razões desconfio sempre quando alguém forma um discurso baseado numa retórica do meio-termo. E o mundo do treino de cães não escapa a esta lei.

Para que o estimado leitor compreenda em que consiste a posição (retórica) do meio-termo, leia isto. Não vai encontrar melhor representante do que este. Tudo o resto ou é imitação barata ou é de qualidade duvidosa. Esta fonte que aqui lhe forneço tem a seriedade de basear as suas afirmações em largos anos de experiência, tem a honestidade de reconhecer erros passados e aprender novas coisas, mesmo depois de mais de quarenta anos a fazer esses erros, e possui a proeza (difícil de encontrar) de tentar formar um sistema fundamentado de educar um cão.
Posto isto, e uma vez que este texto representa o que de "melhor" há na ideologia do meio-termo, o Abacaxi vai dedicar este e os próximos "posts" a um trabalho crítico do conjunto de ideias apresentadas bem como das consequências e dos preceitos implícitos num tal conjunto. Façamo-lo por partes.

  • Introdução: o apelo à experiência

Comecemos pelo curto texto introdutório, no qual Ed Frawley fala da sua filosofia (leia-se ideologia) de treino e educação de cães. A ideia fundamental desta introdução, bem como o seu maior problema consiste no relevo exacerbado da experiência. A dada altura é dito que «um bom treino de cães reside na combinação de senso comum com uma base sólida de experiência e uma clara compreensão da forma como os cães pensam e interagem (estrutura de matilha).»
Ora, para se ter uma vasta experiência num ramo qualquer é necessário, justamente, acumulação de anos que formem essa experiência. Isso implica que, a dada altura no processo, essa experiência não exista ainda; e o indivíduo que mais tarde virá a ser um profissional experiente, ainda não o é. Ora, como um dos requisitos de um bom treino, segundo Ed Frawley, é ter larga e sólida experiência, isso significa que, durante o tempo em que essa experiência ainda não havia sido constituída, e o indivíduo era ainda inexperiente, o treino por si realizado não poderia ser bom. Logo, um indivíduo que seja "bom treinador", segundo Frawley, é um indivíduo experiente; mas, por definição, toda a sua experiência se baseia em anos de mau treino, que equivalem aos anos em que ainda não se detinha a tal base sólida de experiência. A definição de Frawley de "bom treino" é, em si mesma, absurda, pois baseia-se em algo que se contradiz a si mesmo.
E depois vem o famigerado "senso comum". É verdade que, no inglês americano, "common sense" não é bem "senso comum", mas uma mistura de "senso comum" com "bom senso". Ainda assim, a ideia é extremamente frágil. O senso comum, misturado com o bom senso, é a causa da esmagadora maioria dos problemas que existem no que toca à educação de cães. Aliás, que coisa é essa de senso comum e de bom senso? Desde logo, é algo extremamente variável de cultura para cultura; depois, quando falamos de senso comum falamos de que tipo de comunidade? entre donos experientes e preocupados, certos mitos já se desvaneceram, mas os mesmos continuam a proliferar no senso comum de outros grupos com outros interesses... Basicamente, o apelo ao senso comum e ao bom senso é uma bela desculpa para se evitar um estudo pela via da ciência, e para se validar um tipo de conhecimento baseado nas experiências próprias. O problema é que, como se sabe, as experiências variam de caso para caso e não têm nem podem ter qualquer valor de universalidade ou generalidade. 
No caso específico deste texto de Ed Frawley, o apelo ao senso comum é apenas uma legitimação do valor que é conferido à experiência. O grande argumento inicial de Ed Frawley é, pois claro, a sua vasta experiência. Mas note-se no seguinte:  a experiência de Ed Frawley no ramo é, segundo o próprio, superior a 50 anos de trabalho directo com cães, e mais de 40 anos de trabalho profissional. No entanto, há cerca de 12 anos atrás, o próprio Ed Frawley fez uma grande viragem nos princípios que regiam o seu treino, e hoje admite que uma parte significativa do seu trabalho anterior ao início do presente século está ultrapassado e, usando palavras suas, não passava de uma grande porcaria ("it's rubbish!"). Não está em causa a viragem e a renúncia; ela não deixa de ser digna de realce: é preciso uma dose considerável de honestidade e despojamento de si próprio para admitir 30 anos de erros. O que está em causa é que, durante mais de trinta anos, Ed Frawley concebeu práticas que hoje reprova; o que é que isso diz acerca do argumento da experiência? Simplesmente, a experiência tem um papel muito relativo em tudo isto. Não foi por fruto da experiência que Ed Frawley terá mudado de opiniões; terá sido pelo confronto com outras perspectivas, pelo advento e sucesso comprovado de vias alternativas que fizeram Ed Frawley rever os seus princípios, e rejeitar alguns deles. A experiência nunca pode valer como argumento que comprove a legitimidade de uma determinada ideia. Por cada indivíduo com 30 ou 40 anos de experiência que defenda uma determinada ideia, existem quatro ou cinco com experiência igual ou superior que defendem uma ideia contrária. A experiência vale muito pouco, a partir do momento em que vários profissionais com o mesmo nível de experiência chegam a conclusões opostas. E valerá ainda menos quando se trata de conceitos de teor científico. Eu posso um dia chegar a ter 50 anos de prática diária de lavar louça manualmente; mas isso não me vai dar créditos alguns se eu quiser construir um discurso acerca do modo de acção do ácido linear alquil benzeno.. 
Conceitos como os de dominância têm um âmbito bem definido dentro da área da Etologia. Para se falar dele é preciso, pelo menos, ouvir o que está disponível no corpo discursivo da ciência respectiva. Não faz sentido basear todo um sistema de treino e educação de cães num conceito cujo tratamento científico não só se ignora como se coloca propositada e conscientemente de lado. A experiência é manifestamente insuficiente e, sobretudo, nunca pode legitimar nenhum discurso com pretensões de validade universal e sistemática.

(continua...)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Coerência?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que, de um lado, aconselha vivamente o uso combinado de coleira de bicos (prong collar) e de "coleira para cães dominantes" (dominant dog collar), mas, por outro lado, afirma convictamente que uma coleira de choques eléctricos é «100 vezes mais humana e mais eficiente do que estranguladoras ou coleiras de bicos»? 

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que baseia toda o seu programa numa "estrutura de matilha" e numa afirmação do dono do cão como líder dessa estrutura, mas que, ao mesmo tempo, não consegue providenciar nenhuma forma de treino e educação que escape ao uso de utensílios mediadores? Não seria de esperar que a afirmação de um dono como líder alfa da matilha lá de casa dispensasse qualquer recurso a instrumentos de consolidação do poder? Qual o interesse em afirmar uma pretensa posição de liderança, se para isso é necessário um ininterrupto controlo da acção do cão, na maior parte das vezes se tratando de um controlo mediado por instrumentos técnicos?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que faz das seguintes frases um lema promocional de um seu produto: «Esta coleira não deverá ser usada para infligir uma correcção dolorosa. Ela deve ser usada para retirar o ar de um cão agressivo e dominante»? Qual a distinção que se pode fazer entre "doloroso" e "retirar o ar de um cão"? A mim, de momento, escapa-me tal distinção, mas, de facto, não tenho cinquenta anos de experiência de uso de tais instrumentos...

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que, para dissuadir os donos de cães de realizarem certas práticas, faz uso recorrente do argumento "um lobo alfa nunca faria isso", mas, ao mesmo tempo, aconselha que 99% da relação com o respectivo cão, nas primeiras semanas ou meses deste lá em casa, seja feita com uma trela posta ou com o cão enfiado numa caixa-transportadora (crate)? Qual é o lobo, alfa ou omega, que passeia os seus filhotes ou inferiores membros da alcateia com uma sofisticada e vistosa trela? 

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que desaconselha, em termos absolutos, qualquer interacção entre os nossos cães e os outros cães na rua? Será possível imaginar forma mais eficaz de tornar o nosso cão num animal extremamente insociável, e, como tal, extremamente difícil de ser passeado num qualquer ambiente urbano?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que, ao mesmo tempo, realça as virtudes de uma socialização do nosso cão com pessoas, mas desaconselha vivamente que algum estranho faça festas ao nosso cão? Que conceito será esse de socialização que apenas implica a convivência próxima com elementos já conhecidos?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que não se cansa de alertar para formas de prevenir mordidas de cães e, ao mesmo tempo, aconselha a que o dono (e estou a citar) «se envolva fisicamente com cães de rua» que não se afastem do nosso cão, nos nossos passeios?

O que pensar de um sistema de treino e educação de cães que aconselha a sua audiência a transportar gás pimenta para usá-lo em cães de rua que se aproximem de nós e do nosso cão quando andamos na rua?


Serão precisos mais cinquenta anos de experiência para que esta gente se aperceba de tamanhas incoerências e absurdos?

sábado, 27 de julho de 2013

Silêncio, por favor

"Desculpe, mas..."
BUZZ
"...eu gost..."
BUZZ
"...ava de pedir..."
"BUZZ"
"que me ti..."
"BUZZ"
"...rasse isto..."
BUZZ
"...do meu..."
BUZZ
"... pesco..."
BUZZ
"...ço, porque..."
BUZZ
"...é isto mes..."
BUZZ
"...mo que me..."
BUZZ
"...está a dei..."
BUZZ
"...xar nervo..."
BUZZ
"...so e a fazer-..."
BUZZ
"...-me falar..."
BUZZ
"...sem parar..."
BUZZ
"...PORRA."
BUZZ

Um cão tem várias formas de comunicar. Ladrar é apenas uma delas; uma entre muitas. Mas todas as restantes implicam uma proximidade física e um grau suficiente de visibilidade. Quando o "receptor" das mensagens não se encontra no horizonte, a única forma de um cão se expressar é vocalizando. Se um cão ladra em demasia quando está sozinho em casa, o problema não está nos latidos, mas no tédio, na solidão, no aborrecimento que advém de não ter nada que fazer nem ninguém com quem estar. A solução passa por enriquecer o ambiente do cão nos tempos de solidão, e estimulá-lo ao máximo no resto do dia, para que os períodos de solidão sejam mais dedicados ao descanso. Se um cão ladra na presença do carteiro, o mal não está no ladrar, mas no incómodo que essa presença causa no cão. A solução passará por uma dessensibilização ao estímulo em causa, e a prevenção estaria numa rica e continua socialização com elementos estranhos. Seria de esperar que profissionais com mais de quarenta anos de prática chegassem a este tipo de conclusões de forma instantânea. Mas não. Por razões misteriosas, ainda há quem prefira concentrar-se no ladrar em si mesmo; ainda há quem se concentre em formas de terminar com os latidos, sem se preocupar no que lhes está subjacente. Invariavelmente, quando isto acontece, a recomendação recai no uso de um colar de choques ajustado para ser accionado ao som dos latidos do cão. O cão ladra, recebe um choque. O cão ladra, recebe outro choque. E por aí fora. «A beleza do sistema é que a estimulação da coleira [de choques] pode ser ajustada para um valor em que o choque não aleija, sendo apenas ligeiramente desconfortável», ouvimos dizer de experimentados e reconhecidos profissionais. A beleza? Qual beleza, meus caros? Que beleza há em relegar a educação dos nossos cães para instrumentos que até nem aleijam muito, e só provocam um ligeiro desconforto? Uma coisa é usar instrumentos que nos ajudem a aprofundar a nossa comunicação com os nossos cães; outra coisa é usá-los para não ter de educá-los de outro modo. 
Em primeiro lugar, a mim não importa se a coleira dá choques muito intensos ou só ligeiramente intensos; por mim até podiam fazer cócegas: é uma desculpa boçal para treinar o cão desde o sofá. 
Em segundo lugar, não me venham com tangas, ok? Se um cão deixa de ladrar devido aos castigos induzidos pela coleira, creio que não é preciso ser muito especulativo para se perceber que o incómodo causado está longe de ser apenas "ligeiramente desconfortável". Quando um cão ladra, sobretudo por recreação quando está sozinho, quando está ansioso pela separação dos seus donos, ou quando está na presença de figuras como carteiros ou ardinas que pairam no portão de casa, esse ladrar é já manifestação de um estado intenso de nervos, ansiedade, desconforto. Para que um cão deixe de manifestar esse desconforto e essa ansiedade pela forma que lhe é mais natural, imaginemos todos nós que a coleira de choques não está apenas a ministrar uma vibraçãozinha.
Em terceiro lugar: castigar e cessar os latidos não elimina as razões pelas quais o cão está a ladrar. Bem pelo contrário, só se está a aumentar a intensidade da ansiedade e do desconforto em causa. Quando alguém coloca um colar "anti-latido" no pescoço do seu cão, uma de duas coisas está a acontecer: ou não consegue entender absolutamente nada da constituição do seu cão, ou tem as suas prioridades tremendamente pervertidas, pois prefere apagar o desconforto (seu e dos vizinhos) que existe em ouvir o cão ladrar, em vez de se preocupar em cuidar das razões que levam o seu cão a ladrar tão intensamente. No caso de donos inexperientes, a primeira possibilidade é, vá, admissível. No caso de experimentados e reputados profissionais, as duas são igualmente deploráveis. 

Para compreender melhor estes três pontos, imagine o caro leitor que está num desses programas para deixar de fumar baseado na administração de choques eléctricos. 
Se recorreu a este método, acredito que o seu vício é consideravelmente acentuado. De outro modo, procuraria outro método, não? Estou certo de que preferiria deixar de fumar usando métodos não só mais saudáveis e menos extremos, mas, sobretudo, métodos que tivessem mais a ver com a sua própria vontade e não com um tipo de condicionamento externo e maquinal. Portanto, ponto um, usar os choques como forma de educar um hábito é um recurso que passa por cima de uma educação comunicativa e voluntária. Em fumadores e em latidores. 
Muito bem, se tem um vício vincado, então teremos de admitir que não é com cócegas nem com vibrações de telemóvel que a coisa vai lá. Esperneie por onde quiser, argumente o que lhe apetecer: os choques têm de ser aversivos o suficiente para que o leitor perca a vontade de fumar. Não há volta a dar-lhe. Portanto, ponto dois: os choques, para funcionarem, têm de ser intensos o suficiente para quebrar um hábito que, de si, é bastante forte e auto-reforçante. Para fumadores e para latidores.
Agora imagine que fuma por razões de ansiedade ou nervosismo; fuma para aliviar esses estados internos. Ou então, fuma como forma de colmatar momentos de solidão (isto é, para preencher as alturas em que se encontra em público, mas sem companhia). Já se sabe que o comportamento humano é extremamente complexo, e ninguém fuma apenas por uma razão tão clara e linear; mas pronto, façamos este exercício para manter a analogia. Ora, se deixar de fumar por causa da estimulação aversiva que os choques lhe provocam, isso não vai apagar os motivos pelos quais fumava: uma sessão contínua de choques não vai deixá-lo menos ansioso, menos nervoso, nem vai colmatar a sua solidão. Portanto, ponto três, usar choques como forma de parar um hábito não apaga as razões que estão por detrás desse hábito. Em fumadores e em latidores.
E, por fim, imagine que, de todas as vezes que levar choques eléctricos, o técnico que o auxilia está à sua frente. Mas quando não está a levar choques, esse técnico sai de cena. Ora, depois de várias sessões, a presença desse técnico (que apenas está presente na altura dos choques) torna-se antecipador das sensações que os choques lhe provocam. Se acha que não, pense lá bem: o resultado de uma terapia de choques é que o fumador, de todas as vezes que voltar a pegar num cigarro, tem uma náusea extremamente desagradável por causa da associação que lhe foi causada entre o acto de pegar num cigarro e o choque sofrido. Ora, se o choque está associado, não apenas ao acto de pegar num cigarro, mas também à presença daquele técnico em específico, a sensação desagradável também se estende a essa presença.
Agora imagine que não é um humano, com toda a sua capacidade de abstracção e de racionalização das questões; imagine que é uma verdadeira máquina de estabelecer associações: imagine que é um cão. Imagine que costuma ladrar sempre que vê um carteiro e, agora com uma coleira anti-latido, de cada vez que um carteiro está diante de si, leva um choque, porque ladrou. Ora, imagine lá que efeitos este tratamento de choque vai fazer em relação a impressão que vai ter do carteiro. Agora imagine que os cães ladram por mais razões e levam choques em todas essas ocasiões: presença de carteiros, de lixeiros, presença de outros cães... Será de admirar que grande parte dos cães que usam ou usaram coleiras anti-latidos são cães muito pouco sociáveis?

Voltemos, enfim, à epígrafe inicial. Ladrar é uma forma de expressão dos cães. Usar uma forma de castigar cada latido do cão não faz sentido nenhum. Deixa o cão sem qualquer tipo de escolha. Perante situações de perigo ou desconforto, um cão tem sempre três formas de reagir. Fugir, lutar e desistir (suprimir qualquer tipo de actividade; entrar num estado de zombie). Perante um choque de uma coleira, um cão não pode fugir, nem pode lutar. Entra num estado de learned helplessness, num estado de zombie comportamental. Tal cão não aprendeu a deixar de ladrar: aprendeu a desistir de se expressar. O resultado é o mesmo? As prioridades de quem achar que o resultado é o mesmo são, quanto a mim, muito claras: o que importa é terminar os latidos, não importa como, nem importam as consequências.
Não quero dizer que, por ser natural, os latidos devam ser ignorados. Mas se existem outras formas de lidar com eles, por que razão recorrermos a um dispositivo tão frio (porque usa um tipo de comunicação perversa e distante), doloroso (porque inflige dor, digam o que disserem), ineficaz (porque não ataca as causas do problema), castrador (porque remete o cão para uma situação de não-comunicabilidade) e perigoso (porque provoca danos colaterais muito graves no comportamento futuro)? Porquê?



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Não fui eu!

"O meu cão não me deixa dormir. Ele ladra a noite inteira."
"Hm, e qual a sua acção quando isso acontece?"
"Tento castigá-lo, mas nada, ele continua."
"Cuidado com a forma como castiga o seu cão."
"Como assim?"
"Convém que o faça de forma 'despersonalizada'."
"Ãh?! o que é isso?"
"É um tipo de castigo que é aplicado mas de forma a que o cão não perceba que foi o dono que o aplicou"
"Ah, estou a ver. Mas por que razão se faz isso?"
"Para que o cão não aprenda a associar as más consequências ao seu dono."
"Mas não deveria associar? Não deveria ele perceber que sou eu mesmo que o estou a castigar?
"Pois, mas se ele fizer essa associação, a sua ligação com o seu cão pode ficar deteriorada"
"Mas não é esse o objectivo do castigo: fazer com o cão perceba que eu não aprovo tal comportamento? Não deveria eu estar a assumir o papel de líder?"
"eerr, pois, isso é verdade. Mas é melhor que o nosso cão não nos associe aos castigos. Isso pode arruinar a nossa relação com ele..."

Uma das mais recentes modas no treino de cães incide sobre aquilo a que se vem chamando de "punição despersonalizada" (em rigor, isso já se faz há muito, mas a voga do termo é recente, e, com ela, toda uma ideologia adjacente...). O seu princípio é bastante simples: o dono castiga o seu cão mas fá-lo de forma a que o cão não saiba que é o dono que o está a castigar. Tudo em nome da manutenção do vínculo que une dono e cão. Vínculo? Mas qual vínculo? Que vínculo é esse que poderá ser ameaçado pelo facto de corrigirmos o nosso cão frontalmente? Ou deverei perguntar, antes, que castigo é esse que ameaça deitar abaixo o vínculo entre o dono e o seu cão? Das duas, uma: ou o vínculo é extremamente frágil, ou as correcções são demasiado vigorosas. Ou, se calhar, as duas ao mesmo tempo. É que se o vínculo é forte e se a correcção é suave, justa e ponderada, por que raio alguém poderá pensar que o vínculo pode ser desfeito, destruído? 
O mais grave, ainda, reside na forma como toda a lógica pela qual nós educamos os nossos cães é pervertida. Educar um cão é comunicar com ele; a beleza do treino e da educação dos nossos cães é que lhes estamos a ensinar a comunicar connosco, comunicando com eles. Educar um cão é fortalecer o vínculo que nos une. Ora, tudo isto é pervertido quando começamos a congeminar esquemas, montar dispositivos, elaborar engenhocas que castiguem os cães despersonalizadamente, que é o mesmo que dizer, castigar os cães e fingir que não fomos nós. Haverá forma mais perversa, desonesta e cobarde de educar um cão? Se tem dificuldades em conceber o que é um castigo despersonalizado, é só ver os Alexandres Rossis desta vida a enrolar latas com fios fininhos que vão dar a uma tábua que está em cima do balcão da cozinha para que, quando o cão saltar para o balcão e tentar roubar comida, as latas caiam e provoquem um barulho que assuste o cão (esquema bastante estúpido e ineficaz, porque, se o cão tentar uma segunda vez, o barulho já não acontece, e não se cria nenhum padrão de consequências más para o respectivo comportamento); é ver os líderes da matilha desta vida emularem a boca de um cão com os dedos para fingir que, naquele momento, nós próprios somos um cão (um cão esquisito, que tem dentes no fim dos membros e não na boca) e não o humano que lê livros, vê televisão, segura na trela dele mas não usa nenhuma, faz xixi de pé e numa sanita, veste roupas e come com talheres (tudo coisas muito caninas, com certeza); é ver os Rabah Madjer desta vida a dar toques de calcanhar no lombo do cão para "redireccionar" a atenção deste sem que ele perceba que fomos nós que o fizemos; é ver os Muay Thai do treino canino que, para ensinar o cão a não saltar para cima do dono quando este chega a casa, fingem estar muito contentes com o cumprimento dos seus cães, mas, ao mesmo tempo, colocam o joelho de forma a causar um impacto desagradável e, assim, dissuadir o seu cão de repetir a proeza. Repare o estimado leitor no empenho engenhoso de que tanta gente é capaz só para não ter de confrontar o cão. Repare no tempo que muita gente gasta para não gastar tempo a educar os seus cães. 

É neste contexto que surgem as coleiras de choques eléctricos. Para além de poderem castigar o cão à distância, estes dispositivos permitem também providenciar más consequências para os comportamentos errados dos cães sem que essas más consequências sejam associadas ao dono. A mecânica da coisa é mais ou menos esta:
> o cão está a aprender a seguir o dono, com ou sem trela > enquanto segue o seu dono, nada acontece, nem de bom nem de mau (ou até podem acontecer coisas boas, como o dono ir dando biscoitos; para o efeito em causa, tanto faz) > no momento em que o cão se distrai e segue outro caminho, ou simplesmente pára, leva um choque (sobre a retórica do "não é bem um choque, é uma vibraçãozinha de nada", já se falou aqui no abacaxi, portanto, não venham com histórias, por favor) > o cão assusta-se, olha para o dono > este como que diz "não fui eu" > e cão volta a seguir o dono > o processo repete-se algumas vezes até que o cão aprenda a lição. 
E que tal tirar um tempo para ensinar o cão a gostar de seguir o seu dono? E que tal tirar um tempo para construir uma marca verbal de correcção de comportamento (um non-reward mark, de que falaremos a devido tempo)? E que tal ensinar o seu cão a comunicar consigo e aprender a comunicar com ele?
Qual é o objectivo da educação do seu cão: dar espectáculo no parque e ter um cão que o segue mesmo sem trela, ou aprofundar a relação que tem com o seu cão? Quando alguém coloca uma coleira de choques no pescoço do seu cão, não preciso de ouvir absolutamente mais nada para saber quais são as suas prioridades.