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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

... e depois começam os castigos

«Em primeiro lugar, começamos por treinar os nossos cães apenas com recurso a recompensas. Esta é a fase em que ensinamos os comportamentos»
«Certo...»
«Depois, certificamo-nos de que o cão sabe o comportamento, isto é, certificamo-nos de que ele sabe o que o nosso comando quer dizer»
«Hm..., e quando é que isso acontece?»
«Quando o cão já responde a 80% dos comandos.»
«Hm,... e depois?»
«Aí começamos um trabalho de correcção do mau comportamento.»
 
Por esta altura, eu arriscaria dizer que o caro leitor estará à espera que nos concentremos nesta última afirmação. A expectativa criada na epígrafe levá-lo-á a pensar que este texto tratará da questão da correcção do mau comportamento, e da sua necessidade ou falta dela. Bom, de certa maneira, sim, podemos dizer que as correcções estarão na baila, mas apenas em modo residual.
O problema naquele diálogo epigráfico não reside na aplicação dos castigos correctivos, mas na afirmação que antecede essa aplicação e que a justifica. O problema de que se vai tratar está na ideia de que existe um momento determinado em que o cão sabe o comportamento. Melhor ainda, o problema está na interpretação dos 20% de falhas de resposta como demonstrações de desobediência. Numa palavra: vamos falar do grande equívoco que reside na ideia de que, quando um cão já responde a um número significativo de vezes a um comando, ele já sabe o que se pretende dele, e vamos falar no consequente, e ainda maior, equívoco de que sempre que o cão não responde ao comando que, pretensamente, já sabe, ele estará a entrar num incumprimento ou em desobediência.
 
Quatro notas prévias, que ajudarão a dar maior precisão ao intuito de todo este texto: (i) um treinador ou amador cultivado que segue um modelo como aquele exemplificado no texto epigráfico tem o mérito de conhecer e saber aplicar a lei geral de aprendizagem a treino do seu cão (basicamente, conhecer e saber aplicar a lei básica de que o comportamento é moldado em função do tipo de consequências que lhe seguem com mais frequência); (ii) um treinador ou amador cultivado que segue esse modelo de treino tem o segundo mérito de seguir um esquema educativo do cão no qual estabelece um ambiente propício para situações de treino, e não se limita a ir educando o seu cão à medida que os dias vão passando e os problemas surgindo; (iii) não se pretende, de todo, insinuar sequer que não se deve corrigir o mau comportamento; e (iv) o tipo de correcção aplicada administrada àqueles 20% de "falhanços" tanto pode ir do mero castigo negativo ou da repreensão verbal, até ao esticão mais rude de estranguladora, passando por formas leves de "time-outs" ou choques eléctricos de intensidade reduzida. Não interessa. O problema não são os castigos; o problema não está na conclusão de que teremos de passar a uma fase de castigos ou de pressão. O problema está na premissa que motiva essa conclusão: o problema está na ideia de que um cão sabe o que se espera dele quando atinge uma determinada taxa de sucesso na resposta a um determinado pedido/comando, e que quando a resposta não surge (ou surge de forma desajustada), o cão simplesmente está a desrespeitar, de alguma forma, a indicação que lhe foi dada. E essa conclusão, já a vi ser elaborada tanto por treinadores que usam predominantemente formas de castigos como motivação para o treino, quanto por treinadores especialmente concentrados nas recompensas.
 
É por isso que considero urgente recuar um passo no raciocínio, e analisar séria e criticamente aquela premissa que nos dirige para esta conclusão precipitada. É preciso questionar o que é isso de o cão "saber" um comportamento, e compreender os potenciais perigos desta ilação. É isso que se tentará fazer aqui no abacaxi ao longo desta semana.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Centrão, quinta e última parte

«...pois é, e também não podemos nunca estar por debaixo deles, senão eles pensam que mandam lá em casa».

Os meus olhos deverão ter saído das órbitas quando me voltei para ver qual o genial proferidor de não menos genial afirmação, e reparei que o mesmo era nada mais nada menos do que dono de um Dogue Alemão. As dificuldades por que aquela família não deve passar... apertar atacadores e apanhar coisas do chão estão absolutamente fora de questão. Pelo menos com o cão por perto. E imagino a altura em que as camas e sofás não estarão!

Ora bem, este último dos textos dedicados à ideologia do meio-termo vai incidir sobre as práticas concretas que fazem com que um dono se estabeleça como alfa e não como outra letra qualquer. 90% das vezes que este discurso é proferido, ele é revestido por uma essencial vagueza. Tudo é uma questão de se ser líder da matilha; mas tanto o que é isso do líder da matilha quanto a forma como um dono chega a tal ascético pedestal permanecem numa irremediável vagueza de explicações. Temos de ser calmos; temos de ser assertivos; temos de emanar uma energia de líder; temos de manter uma postura corporal de líder. Bom, a menos que o caro leitor seja fã de livros de auto-ajuda espiritual e navegue pelas hordas da New Age, estou certo de que a única reacção que estas expressões lhe sugerirão serão um valente bocejo de desprezo. Vago. Vago. Vago. E vago. Tais directrizes não querem dizer absolutamente nada de concreto.
E quando pedimos para que este discurso seja mais concreto, que brilhantes são as pérolas com que nos brindam.

Para tentar manter a seriedade no tema, recorramos à fonte que, apesar de tudo, ainda merece respeito na forma crítica, sistemática e frontal como tenta abordar o assunto do treino de cães (embora nem sempre o consiga).
Segundo o sistema Leerburg, um líder de matilha tem de comer sempre antes dos outros membros. Esta é uma das leis mais firmes e conhecidas desta "ideologia". Tanta e tanta gente pensa e pratica esta lei. O que acontece quando o líder da matilha não tem fome, mas já são horas de dar a comida ao canito? O líder da matilha entafulha-se com uma sandes improvisada só para manter a mensagem para o seu cão? Ou chegam umas bolachitas de água e sal? Um copo de água certamente não será suficiente, mas e se tiver umas vitaminas, será que o cão já considerará que está a comer depois do seu líder? Ou poderemos estar a cair no gravíssimo perigo de o nosso cão perceber que, afinal de contas, ele é que é o líder? O líder da pessoa que acabou de lhe dar a comida, note-se... E então o que acontece nas famílias que têm horários diferentes? Todos os membros da família devem estar acima do cão na hierarquia, certo? Então devem comer todos ao mesmo tempo, e o cão depois? Mas e quando um dos elementos não está? O filho que foi jantar fora, ou a filha que está em casa de uma amiga... Eles jantam por skype, para que o cão tenha a certeza que come depois deles? (Curiosamente, Ed Frawley resolve este problema facilmente: o resto da família não é líder do cão; só ele. Eu pergunto: ora, se só um membro da família é o líder, e se ser o líder da matilha é condição exclusiva para que o cão não se torne num feroz canino dominante, então não será agressiva e dominantemente que esse cão irá interagir com o resto da família?)
Outra coisa curiosa: o sistema Leerburg defende o "crate training" como forma de limitar as liberdades iniciais do cão ou cachorro que chega a nossa casa; e a forma de fazê-lo passa por alimentar o cão de cada vez que o queremos colocar lá dentro. Partindo do princípio que o cão não vai passar 7 ou 8 horas metido numa caixa-transportadora, ele vai entrar e sair várias vezes da "crate" ao longo do dia. Ora, imagine a quantidade de lanches que o caro leitor não vai ter de fazer para comer sempre antes do seu cão...

Uma outra lei: "não deixar ninguém fazer festas ou dar guloseimas ao meu cão; eu, enquanto líder, sou o único que o farei". Portanto, basicamente a ideia é eu ser o líder do meu cão por ausência de concorrência. Pelo sim pelo não, mais vale não deixar ninguém interagir com o meu cão, não vá ele gostar mais desse completo estranho que nunca viu na vida do que de mim. Isto é um líder firme e seguro? Epá, isto, no meu dicionário, é o sinal mais evidente de extrema insegurança.
A ideia, diz Frawley, é fazer do dono o centro do universo do cão. Isto até pode resultar sem problemas graves no caso de treinadores de cães e de outros que dedicam a quase totalidade do seu tempo para o seu cão. Mas para o resto dos comuns e mortais donos de cães, as horas diárias que o cão compartilha com o seu dono não são assim tantas; achar que uma pessoa que trabalha 7 horas por dia, dorme outras 7, ainda perde 2 horas em viagens, e ainda tem de fazer compras, levar e trazer o filho da escola vai ser o centro do universo do seu cão é sentença certa para que a vida e o ambiente desse cão sejam extremamente pobres. O donocentrismo é uma condição maligna de que muitos cães padecem; e muitos donos também. O mundo do seu cão não começa e acaba no dono - e ainda bem. Um cão com medo do camião do lixo não está a reflectir nenhuma insegurança do dono. O cão não é uma extensão do dono. Tem personalidade própria; tem gostos próprios; tem medos próprios. O dono pode é ajudar o cão a lidar com tudo isso. Mas não como se ele fosse uma extensão sua.
Impedir que o seu cão seja acariciado por estranhos, além de idiota em si própria, é uma ideia que vai resultar num cão muito mal socializado num futuro próximo. Depois quando o vosso cão morder a mão de uma pessoa que se aproximar, não estranhem... Nem reclamem: foi tudo a bem de se constituírem como o centro do universo do vosso cão. Haja boas prioridades.

Uma terceira, e mais conhecida lei: nunca deixar o cão passar primeiro nas portas. Frawley, tal como tantos outros, afirma que passar primeiro nas portas «embora possa parecer insignificante para nós, é coisa muito importante para um cão em termos de respeito». Eu pergunto: mas o que é que fornece tanta certeza a esta afirmação? Por que razão podemos afirmar que isto de passar em primeiro pelas portas é tão importante para um cão "em termos de respeito"? Este tipo de afirmações não se pode fazer sem que, pelo menos, haja acesso à contra-prova, ou seja, haja acesso ao comportamento que têm os cães que passam primeiro nas portas. Deduzindo que o próprio Frawley nunca tenha deixado os seus cães passar primeiro nas portas, para não correr o risco de ter de lidar, daí em diante, com um Führer de quatro patas lá por casa, eu de boa vontade poderei apontar alguns exemplares que passam nas portas primeiro que os donos, nomeadamente o meu próprio cão. Deixar um cão passar primeiro nas portas pode ser problemático ou mesmo perigoso; mas não por uma qualquer razão nebulosa ou mística. Se um cão sai disparado quando abrimos a porta de casa, isso pode causar problemas. Mas esses problemas estão directamente relacionados com a saída disparada pela porta fora; não tem nenhuma repercussão com uma pretensa relação hierárquica. Se o dono pretende algum rigor ou disciplina à porta, então ensine o seu cão a sentar e a esperar que o dono dê um sinal que permita que o cão passe na porta. Simples e directo.
Além de infundado e particularmente lunático, este princípio não é cumprido por ninguém. Desculpem lá, mas eu não acredito que alguém, quando chega a casa e tira a trela ao seu cão, ande sempre à frente deste quando ele vai beber água à cozinha. "Ups, o Faísca entrou na sala, e eu ainda estou no corredor; é melhor esperar um ou dois minutos antes de entrar na sala, senão ele pode achar que eu estou a entrar depois dele, e começa a achar que é o líder". Aliás, o próprio Ed Frawley não cumpre esta "lei": neste vídeo, no mínuto 3'42'', Frawley passa pela porta ao mesmo tempo que o seu cão (qual será a lição do cão?... será que estão empatados no grande campeonato da liderança alfa?), mas, logo a seguir, o cão passa muito primeiro pelo portão do exterior. Será que esta lei é apenas válida para as portas do interior? Ou será que aquele tipo de porta também conta e, a partir daquele dia, o Snickers se tornou o líder lá de casa?

Não nos podemos esquecer daquela que é provavelmente a mais clássica das leis da liderança de matilhas. Nos passeios, devemos sempre andar à frente ou, quando muito, ao lado dos nossos cães. Nunca atrás. Ou seja, os cães cujos donos praticam Canicross são sempre os líderes da matilha...
Aliás, o que é que determina a liderança? Se um cão passear 20% do tempo já pensará que é o líder? E se for 10%? "olha, neste momento o cão vai à sua frente, está a pensar que é o líder... olha, olha, agora não, já não pensa que é o líder...". 

Depois, claro, a lei das altitudes (ponto 8), exemplificada na epígrafe deste post. Diz esta "lei" que o líder, «enquanto humano, nunca deverá colocar-se a si próprio numa altura igual ou inferior à do cão». Eu juro que cada vez mais acredito que os inventores destas leis não vivem nem nunca viveram com um cão. Durante um dia inteiro, vai haver uma ou outra altura em que o dono vai ter de se baixar. "oh querida, tira lá o bolinhas aqui da sala, porque eu vou ter de apanhar as pilhas do comando que foram para debaixo do sofá". Mas o que é que esta gente acha que se passa dentro da cabeça de um cão? "uh la la, queres-me ver esta agora? O meu dono (ou melhor, ex-dono) está ali deitado no chão... então não é que eu sou o novo líder desta casa? As coisas vão mudar a partir de agora.. oh, não, o meu dono já se levantou, já não sou o líder... oh, calma, ele baixou-se outra vez, voltei a ser, oh, já voltei a ser um cão, novamente... foi bom enquanto durou". Enfim.

Por fim, o jogo do sério (ponto 2). Segundo esta lei, devemos olhar directamente nos olhos do nosso cão e ser os últimos a desviar o olhar; deve ser o cão a desviar o olhar em primeiro lugar. Basicamente, vamos jogar ao sério com o nosso cão. Quem ganhar é o líder. De quem é a mente infantil que inventa estas regras? Por que não alargar o espectro dos jogos? Fazer uma espécie de olimpíadas da matilha; o vencedor sagra-se o líder da matilha. Podemos começar por jogar à sardinha; depois, as escondidinhas, a apanhada, e não esquecer o jogo do lencinho. Tudo menos o Tug-of-war (ponto 18); isso é que não; se o cão ganhar, meu deus, aí ele fica a achar que é o super-alfa lá do prédio. Já agora, se este pessoal divertido se entretivesse a estudar comportamento canino em vez de andar a inventar coisas, iria saber o que significa o olhar fixo nos olhos de um cão: é um sinal invasivo e ameaçador. Quando olhar para o seu cão olhos nos olhos, fixamente e prolongadamente, não está a dizer-lhe "eu sou o teu líder"; está a dizer-lhe "eu sou uma ameaça". É essa a mensagem que quer transmitir para o seu cão? Não?, então não perca o tempo com baboseiras de revistinha e leia sobre comportamento canino real. O seu cão agradecerá.

A lista poderia continuar quase indefinidamente. Basta a imaginação querer. Se a mentalidade dos nossos cães fosse tal que se predispusesse a analisar cada um dos nossos actos como sinais de liderança ou submissão, eu colocaria aqui a questão pertinente que Jerry Seinfeld colocou já há cerca de 20 anos: como é que os nossos cães, esses seres hierárquicos e sempre atentos aos nossos sinais de liderança, verão a forma como nós apanhamos os cocós? Não parece uma atitude lá muito de líder da matilha andar com saquinhos a apanhar os serviços que os nossos cães fazem, pois não? Além disso, não conheço nenhum cão ou lobo que ande a apanhar os cocós dos seus "seguidores". Espero não estar aqui a dar ideias; não tarda, algum dos cultores da ideologia da matilha ainda se lembra de divulgar na sua igreja que apanhar cocós dos cães é sinal de submissão, e pronto, lá vão as nossas cidades voltar a ficar apinhadas de dejectos. Tudo a bem da estrutura da matilha!

Aquilo que é importante a reter é o seguinte: nunca, ninguém, em circunstância alguma conseguiu dar uma indicação concreta, sensata e com sentido de como é que o dono se estabelece enquanto líder da matilha. Nunca. Quando alguém fala nisto do líder da matilha, normalmente o discurso versa sobre medidas e ideias absolutamente vagas: transmissão de energias, estar calmo e assertivo, ter mentalidade de líder, etc. E quando se pede por algo mais concreto, algo que se possa, realmente, fazer, invariavelmente o discurso vai parar a este tipo de preceitos absolutamente absurdos e infundados. Comer primeiro do que o cão não vai ter absolutamente nenhum reflexo no resto dos comportamentos desse mesmo cão. Se quer que o seu cão preste mais atenção naquilo que lhe diz, trabalhe esse aspecto em específico. Se quer que o seu cão não puxe a andar à trela, trabalhe esse aspecto em específico. Se quer que o seu cão não ladre tanto, trabalhe esse aspecto em específico. A resposta é sempre treino. Não há outra hipótese, por muito atractivos e encantadores que sejam os discursos que promovem essas alternativas holísticas. 

O grande problema destas propostas é a sua incoerência lógica. Qual é o objectivo: ter um cão que obedeça ao seu dono. Como fazer: o dono estabelece-se como líder. Como é que se estabelece como líder: fazendo o cão obedecer. Ou seja: temos de dar sinais de liderança para sermos o líder para que o cão obedeça. E que tal ensinar ao cão qual é o comportamento pretendido? Quer que o seu cão sente quando lhe diz para sentar? Então ensine-o a sentar. Simples e directo. 
"Ah, mas o meu cão sabe sentar; só que não senta sempre; eu quero que ele sente sempre que eu lhe digo, e para isso, é preciso que ele saiba que eu sou o líder". Não, se o seu cão apenas senta de vez em quando, então não sabe "sentar"; não foi bem ensinado. O problema não está no facto de o seu cão não o ver como líder; o problema está no facto de lhe ter ensinado mal. Uma criança que saiba escrever, não saberá, necessariamente, compor um texto de duas páginas sem erros e com sentido. E se ela não o sabe não é por desrespeito aos pais ou aos professores; é porque ainda não aprendeu a fazê-lo. Para um cão, 'sentar' é o mesmo que 'escrever': sentar na sala, sem distracções e enquanto o dono lhe promete um biscoito é fácil, é como uma criança escrever o próprio nome. Mas sentar num parque com 20 cães à volta, isso já é coisa parecida a escrever um ensaio literário. Logo porque sei escrever, não quer dizer que consiga escrever um conto; logo porque um cão saiba sentar, não quer dizer que seja capaz de sentar em qualquer circunstância. Não é uma questão de liderança ou de respeito: é uma questão de treino. 
Já chega de desculpas para não treinar o seu cão. 

domingo, 4 de agosto de 2013

Centrão, quarta parte


«Se quisermos um verdadeiro cão obediente e equilibrado, não basta ensinar-lhe comandos e comportamentos; temos de nos afirmar como o líder da matilha; o nosso cão tem de nos ver como o seu líder.»
«Mas, se quando eu digo "senta", ele senta, e quando eu digo "aqui", ele vem, isso não significa já que o meu cão responde aos meus pedidos?»
«Errr, sim, ou melhor, ..., não. Na verdade ele pode só estar a responder por interesse. Convém que, paralelamente, se estabeleça uma hierarquia bem definida em que o dono se assuma como líder alfa»
«Mas se ele responde aos meus comandos, como é que o meu cão poderá achar que está acima de mim na hierarquia?»
«Ele pode não responder em outras situações.»
«E não deveríamos treinar também essas situações de modo a que ele passe a responder também nessas?»
«Sim, mas ele só vai responder verdadeiramente se nos reconhecer com líder.»
«Então, ele reconhece-me como líder nas coisas em que me responde, mas não me reconhece nas coisas a que não responde? Isso não significa apenas que houve coisas que já treinámos e outras que não?»
«Como assim?»
«Se o meu cão responde quando eu digo "senta", isso não significa que ele já me reconhece como líder?»
«Não, se ele responder apenas por interesse.»
«Então, se não é por interesse, de que outro modo é que o meu cão deve responder aos meus pedidos? Pela força?»
«Não, não! Um verdadeiro líder nunca ou raramente usa a força.»
«Então usa o quê?»
«Respeito.»
«Ah, então todas essas estranguladoras são para... impor respeito?»
«Err, sim, se necessário.»
«Estou a ver, estou a ver. Mas então que passos concretos é que temos de dar para nos afirmarmos como líder.»
«Ouça lá, quem é o especialista, aqui? Quer o senhor queira, quer não, os cães têm necessidade de viver numa estrutura na qual exista um líder; se nós não nos assumirmos como o líder, assumem os cães.»
«Bom, não vamos perder tempo. O que é que vamos fazer hoje?»
«Vamos trabalhar a chamada...»

  • Treino vs. comportamento equilibrado
A meu ver, hoje irá ser abordado um dos maiores e mais melindrosos mitos que se tem espalhado pelas cabeças de quem se envolve na educação dos seus cães. É extraordinariamente comum ouvirem-se diálogos como o da epígrafe deste texto. É muito frequente ouvirmos pessoas a dizer coisas como "Oh, não quero que o meu cão saiba uma série de coisas, não quero ensinar-lhe uma bateria de comandos e truques. O que quero é que ele se comporte bem e que me respeite". 
É um facto que existem vários cães que têm um conjunto significativo de truques e comportamentos complexos no seu repertório, mas que, em contrapartida, acumulam alguns problemas comportamentais. Não são poucos os cães com forte desempenho em obediência competitiva e com problemas como, por exemplo, ansiedade por separação; cães que intercalam sessões inteiras de resposta a pedidos de comportamentos complexos com demonstrações de agressividade perante outros cães. Isto é bem verdade. Mas não podemos tomar estes factos como premissas para concluir que treinar um cão é coisa distinta de dar estrutura e equilíbrio ao seu comportamento. Numa palavra, há uma ideia muito enraizada de que uma coisa é ensinar o cão a sentar, a deitar e a dar a patinha, e outra bem diferente é ter um cão que respeite o dono quanto dono, e que se saiba comportar em casa e na rua. 
Trata-se de uma ideia tanto mais enraizada que ela é não é apenas difundida por entre os comuns donos de cães. Não; ela é também difundida por especialistas de comportamento, por treinadores profissionais. Tal ideia chega mesmo a ser o slogan de alguns destes profissionais. O objectivo de hoje do Abacaxi é desconstruir esta ideia desde a sua base; demonstrar o seu ridículo e a sua falta de fundamentação: numa palavra, o objectivo é esclarecer, do modo mais definitivo possível, em que é que consiste o treino de cães e o quão importante e insubstituível ele é para que a relação dos cães com os seus donos seja a melhor possível.
Voltemos ao texto de que nos temos servido para exemplificar os princípios da ideologia do meio-termo no treino de cães. Nesse texto, Ed Frawley escreve uma frase que se torna bastante emblemática acerca da forma como o próprio encara a educação de cães: «A maioria dos problemas comportamentais surge como resultado de uma fraca estrutura de matilha no ambiente em que o cão vive. Por essa razão, nós dizemos às pessoas que treino de obediência representa apenas 25% da solução para corrigir problemas comportamentais, e 75% da solução tem a ver com o estabelecimento de uma sã estrutura de matilha». Não importa tanto notar qual o relevo e quais os valores que Ed Frawley concede ao treino e à estrutura de matilha; o que importa é que é feita uma separação entre as duas coisa. Conforme veremos de seguida, não existem duas coisas. Tudo é uma questão de treino, e treino é educação. Toda a história de um estabelecimento de hierarquia estrutural é uma invenção, uma grande invenção. Vejamos aquilo em que Ed Frawley baseia a sua ideia de estabelecimento de uma estrutura de matilha, e veremos se existem ou não razões para fazer uma distinção entre isso e o treino de cães.

Diz Ed que, «quando a pergunta se relaciona com a forma de criar um vínculo, ganhar respeito e ser capaz de manter a liderança em relação aos nossos cães, a resposta é ter a certeza de que o cão compreende que nós seremos sempre justos para com ele. Assim sendo, o cão tem a responsabilidade de responder perante coisas que já conhece, e, se ele recusar, irá haver consequências».
Bom. Isto não se difere em nada do princípio básico do treino de cães. Pode haver alguma variação nos termos escolhidos (eu, por exemplo, preferiria não usar "recusa" ou mesmo "responsabilidade") , mas, em termos basilares, esta é uma forma de definir o princípio básico do treino: não esperar coisas que ainda não ensinámos; providenciar consequências ajustadas para o comportamento ocorrido. Isto é treino. Ponto. Até aqui, ainda não se vê qualquer razão para distinguir treino de estabelecimento de liderança e respeito. Até aqui, a coisa parece ser uma e uma só. Mas pode ser que mais para a frente haja uma distinção real das coisas. Vejamos.

«Ao longo da experiência ganha em treino, nós demonstramos ao cão que apenas vamos pedir-lhe coisas que ele saiba fazer. Quando ele faz algo correctamente, nós fazemos sempre algo de bom para eles. Da mesma forma, quando ele faz algo incorrecto, nós deixamos-lhe SEMPRE claro que ele cometeu um erro».
Hm, pois, continuamos no mesmo ponto. Isto não é outra coisa senão treino. Pura e simplesmente treino. Aprender segundo as consequências é a ideia mais básica da lei da aprendizagem, fundada nos princípios do condicionamento operante. Usar esses princípios para ensinar o nosso cão alguma coisa (seja 'sentar', 'ladrar', 'dar a pata', subir ou descer do sofá, esperar pela comida, não saltar para as visitas, qualquer coisa) é treino. Não adianta vestir a coisa de palavras diferentes, chamar-lhe estrutura de matilha ou o diabo a quatro. Isto é treino. Ponto. Até agora, ainda não há razões para criar qualquer tipo de folclore em torno de uma figura mitificada - o dono alfa. Mas pode ser que ainda haja. Continuemos em busca desses princípios concretos que justifiquem a existência dessa estrutura de matilha e desse líder da matilha.

«O cão deve aprender que nós somos 100% consistentes na forma e no momento em que administramos correcções. Ser consistentes a toda a hora é uma das componentes mais importantes de se ser um líder da matilha. Por exemplo, nós não podemos ignorar um comportamento agressivo perante um convidado em nossa casa e, depois, corrigir o nosso cão quando ele for agressivo durante um passeio.» Ou seja, temos de providenciar sempre o mesmo tipo de consequências para o mesmo tipo de comportamentos. De outra forma, o nosso cão terá mais dificuldades em compreender o que esperamos dele; terá mais dificuldades em compreender-nos. Mais uma vez, estamos perante um princípio básico de treino. Um bom treinador sabe que deve controlar as consequências dos comportamentos dos cães de modo a agilizar a sua aprendizagem. Consequências distintas para o mesmo comportamento fazem emperrar a aprendizagem, a educação e a comunicação do nosso cão. Isto é, pura e simplesmente, uma questão de treino. Continua a não haver razões para criar uma realidade paralela ao treino, pois o treino continua a compreender esta esfera da aprendizagem e do comportamento canino. Será que haverá alguma razão para aceitarmos a divisão feita inicialmente? Continuemos na nossa demanda.

Ed Frawley continua: «Durante praticamente toda a minha vida de adulto eu treinei cães de protecção e cães de serviço policial. Comecei a estudar trabalho de protecção em 1974. Os meus cães aprenderam que a única altura em que lhes era permitido ser agressivos era quando eu lhes dizia que tal era OK ou quando eu era atacado. Ao longo do meu treino, isto tornava-se muito claro para o cão». Esta nem necessitaria de comentário. É uma questão de treino, e pronto. Não era por assumir algum tipo de postura física que os cães sabiam quando e como atacar; não era por emanação de alguma energia etérea; não era porque o dono comia primeiro do que os cães; não era porque Ed e seus cães jogavam ao sério e Ed ganhava sempre. Não. A razão pela qual os cães aprendiam tal valiosa lição advinha pura e simplesmente do treino específico desse comportamento, apoiado, claro, no treino anterior de outros comportamentos, que é como quem diz, apoiado na relação de comunicação e interacção que o treino prévio criou e fortaleceu.

«Se estudar comportamento de matilha, ou mesmo comportamento de pastoreio, verá que os problemas relacionados com a matilha são lidados de forma muito subtil ou passiva, mas o desrespeito é lidado de forma muito rápida e agressiva. O mesmo deve acontecer numa relação com um cão.» Esta é uma ideia extremamente desconjuntada. Em primeiro lugar, Ed parece sugerir que lidemos de forma agressiva com um problema de "desrespeito" do nosso cão, o que colide violentamente com alguns dos preceitos que encontramos no resto do conjunto de princípios que fundam o sistema de treino e educação de cães da Leerburg. Em segundo lugar, não se percebe bem a diferença entre "problemas relacionados com matilha" e "desrespeito". O fundamento que legitima a existência de uma estrutura de matilha não se prende com a estipulação de uma hierarquia? Então, um "problema de matilha" não será, justamente, um problema na harmonia da hierarquia criada? Qual é a diferença entre tal "problema" e um problema de "desrespeito"?
Em terceiro lugar, e mais importante de tudo: aquilo a que Ed Frawley denomina "desrespeito", à luz do que escreveu no seu texto, só pode ser interpretado como "incumprimento de uma indicação dada". Ou seja, desrespeito é quando um comando não é seguido, quando uma indicação não é respondida convenientemente. Isto são problemas que surgem durante o treino. Têm a ver com a forma como as consequências estão a ser geridas; tem a ver com a existência de distracções demasiado fortes para que a indicação seja cumprida; etc. Tem tudo a ver com treino, e nada a ver com desrespeito de uma pretensa hierarquia. Se vamos optar por adicionar pressão para que o cão responda (isto é, definir consequências mais aversivas para o mau comportamento) ou se vamos optar por uma estratégia de reforço mais acentuado dos comportamentos desejados, isso é uma escolha que se faz dentro do universo do treino, e tem a ver com a forma como cada um se posiciona dentro desse universo. Mas uma coisa é absolutamente certa: tudo passa por um ajuste no tipo de consequências fornecidas para um determinado comportamento, tudo passa por uma redefinição do ambiente e das variáveis; nada se passa por uma questão de simples imposição de autoridade e respeito ou desrespeito desta. Tal como o próprio Ed Frawley admite, «os cães não fazem coisas para que nós nos sintamos bem; eles fazem as coisas que lhes fazem sentir-se bem». Ora, compete a cada um de nós fazer com que as coisas que fazem os nossos cães sentir-se bem coincidam com as coisas que nos fazem sentir bem também. Compete-nos gerir, criar e canalizar a motivação dos nossos cães. Isto é treinar. Isto é educar. De modo genérico, há duas vias de fazer isto (embora, dentro de cada via, haja toda uma multiplicidade de formas de fazê-lo). Duas, não mais. Uma terceira via, ao meio, é uma invenção e uma ilusão; como tal, necessita de outras invenções ilusórias para se justificar. É invenção e é ilusória toda a história que se conta de uma estrutura de matilha e do papel de líder de matilha que temos de assumir.

Não só é ilusória, como também é perigosa. «Treinadores [e donos] inexperientes precisam lembrar-se de que um cão aprende por repetição. Muitas vezes, são precisas 30 repetições para que um cão aprenda um novo comando. Os treinadores [e donos] são frequentemente culpados de pensar que o seu cão compreende um comando quando, na verdade, eles não repetiram o exercício vezes suficientes para que o cão compreendesse o verdadeiro significado daquilo que esperam do cão. Isto resulta em donos [e treinadores] corrigirem injustamente alguma coisa que o seu cão não compreendeu por completo». 
Toda esta coisa das repetições e da consolidação e generalização de um comportamento tem a ver, única e exclusivamente, com treino. A ideia de que nos devemos tornar "líderes da matilha" só provoca uma ilusão perigosa de que o nosso cão deve comportar-se correctamente por respeito ao seu líder. Quando um cão se "recusa" (chamemos-lhe assim) a sentar durante um passeio, frequentemente ouvimos o diagnóstico: "pois é, está a desrespeitar o dono; ele não o vê como líder da matilha, meu caro". Quando um cachorro de quatro meses mordisca as mãos do dono, claro, "não está a reconhecer o dono como seu líder". E por aí fora. Ora, a ideia de se fundar uma estrutura de matilha e firmar-se o dono como líder dessa matilha é uma forma extremamente apetecível para alimentar a preguiça de passar à frente as trinta repetições e menosprezar o engenho de levar o cão a compreender o que esperamos dele. Quando um cão não responde a um comportamento, ou quando tem um mau comportamento, simplesmente esse comportamento não foi devidamente ensinado e exercitado. Mas claro que é mais fácil dizer-se que o dono não está a ser um verdadeiro líder da matilha. É fácil, mas também é perigoso. Ed Frawley está perfeitamente consciente deste perigo. Daí que chame a atenção para o facto de que um verdadeiro líder não apoiará a comunicação com o seu cão nessa liderança; um verdadeiro líder terá de percorrer os passos todos exigidos pelo treino.
Mas a pergunta que se faz é: se o tal líder da matilha tem de percorrer todos os passos do treino do seu cão, por que razão é que o treino do cão é 25% da educação, apenas? Por que razão se separam as duas coisas? Ou melhor, por que razão se reifica a existência de algo cuja razão de existir continua a não ser clara? Por que razão se dá tanto ênfase à estrutura da matilha e à constituição do dono como líder dessa estrutura, se, dê por onde der, tudo vai desaguar à questão do treino?

A resposta é simples: grande parte das pessoas interpreta o treino de cães como o ensino de um grupo finito de comportamentos. Grupo do qual não fazem parte problemas comportamentais como agressividade. É comum ouvirmos dizer que ensinar a sentar e a responder à chamada são questões de treino, mas resolver a agressividade é uma questão de reabilitação. Numa palavra, existe uma ideia generalizada de que treino é uma parte restrita do comportamento dos cães e da nossa relação com eles. Toda uma outra parte, mais importante, pois claro, já não faria parte da esfera do treino; tudo o resto já faria parte da própria essência da relação do dono com o seu cão. E quis "o destino" que a maior parte das pessoas definisse essa essência numa perspectiva de liderança. Daí que surjam, como cogumelos, os discursos da estrutura da matilha, e afins. Só que, sempre que alguém tenta consolidar um tal discurso, os seus fundamentos vão sempre dar a questões que se relacionam com o treino. SEMPRE. Os dois pólos opostos da metodologia de treino de cães têm várias coisas a separá-los, mas ambos parecem conscientes de que educar um cão é treiná-lo, e treinar um cão é educá-lo. Não há energias, estruturas de matilha, posturas mágicas, encantamentos. O que há é comunicação e ensino. Mútuo. O meio-termo do treino canino também sabe desta verdade, mas, para justificar a sua existência, acaba por criar um dogma apelativo à comunidade de donos de cães. O dogma de que treinar cães é algo completamente restrito e limitado, quando comparado com o resto que se passa numa relação entre cão e seu dono.
O curioso é que, apesar de este dogma ser extremamente frágil nos seus fundamentos (como espero que tenha ficado explícito ao longo deste texto), ele continua a imperar e a ganhar adeptos. Fica sempre bem ficarmos numa posição moderada. Faz-nos parecer menos dogmáticos. Mesmo que o sejamos mais do que todos os outros...



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Centrão, terceira parte

(continuação)

  • Matilha e antropomorfização

Um outro traço muito presente nos cultores da ideologia do meio-termo consiste na estipulação da relação entre cão e seu dono como sendo estritamente hierárquica. Como tal, a promoção do dono como elemento ascendente nessa hierarquia será o passo mais importante para que todo o comportamento do cão se adeque às expectativas da família.
O texto que explana a "filosofia" de treino de Ed Frawley não poderia escapar a esta tendência. A terceira parte do texto (os pontos "Dogs are pack animals..." e "How to build respect and leadership") dedica-se a abordar uma pretensa constituição essencial do cão como animal de matilha e a estipular a forma de o dono conquistar a posição de topo nessa matilha.
Um dos problemas que Ed Frawley aponta é a constante antropomorfização que muitos donos fazem dos seus cães. Aliás, essa é uma crítica muito em voga, desde há uns anos. De facto, antropomorfizar o nosso cão é uma das formas mais rápidas de encomendar problemas na relação. Existem várias formas de antropormorfizar a espécie canina, mas todas elas, mais ou menos directamente, têm a ver com um revestimento moral dos nossos cães. Jean Donaldson ataca esta questão melhor do que ninguém: a nossa «visão distorcida dos cães é uma forma perversa de medir o quanto nós gostamos deles. Nós queremos que eles sejam espertos, moralmente "bons". (...) A nossa compaixão e consideração por outros seres está fortemente correlacionada com a nossa percepção do quão similares eles são de nós mesmos...». Ora, tendemos a antropomorfizá-los para sustentar e legitimar o quanto nós gostamos deles. São frequentes os artigos e estudos que tentam demonstrar o quanto os nossos cães são parecidos connosco. É como se procurássemos ver o máximo de traços em comum entre homens e cães. Travamos uma relação com uma outra espécie, e, em vez de procurarmos um enriquecimento proveniente de uma diferença essencial, andamos constantemente a descortinar humanidade nos cães e "canidade" nos homens. Quando alguém diz "quanto mais conheço os humanos, mais gosto dos animais", essa pessoa está a avaliar os animais em função de uma falha moral humana; os cães, espécie a quem este tipo de expressão é mais endereçada, são sempre avaliados em função de uma medida humana. "Olhe, olhe para aquilo, são tão bonitos... só lhes falta falar".
Antropomorfizar ou humanizar os cães é, de facto, uma razão forte para a criação de problemas. O que é curioso é que uma das formas de antropomorfizar cães consiste em defini-los como seres hierárquicos e, sobretudo, definir as regras e as determinações de tal hierarquia à luz das hierarquias humanas. A forma como muitos, hoje, se tentam demarcar de uma humanização dos cães é bastante irónica. Ridiculamente irónica. Para evitar tratar os cães como pessoas, transformam-se as pessoas em cães. A família lá de casa, que, até à chegada do cão, era uma família normal, humana, composta por pessoas, pai, mãe, filho, filha, essa mesma família, à chegada do seu novo elemento de quatro patas, transforma-se: deixa de ser família e passa a ser matilha. É frequente ouvirmos que todos os cães vêm as pessoas lá de casa como membros da sua matilha. Não vamos questionar esta afirmação; vamos fingir que ela é inquestionável e que corresponde à verdade. Ora, quando os nossos cachorros chegam a nossa casa, a nossa missão é dar-lhes a conhecer novas regras, dizer-lhes quais são os comportamentos admissíveis e quais aqueles que não o são. Se ele interage maioritariamente com os dentes, compete aos membros lá de casa dizer-lhe que existem outras formas de interagir e que tem de ter cuidado com os dentes, pois "nós não somos cães". Se o cão nos vê como elementos de matilha, não seria lógico que a nossa função fosse ensinar-lhe que, enquanto humanos, nós não formamos matilhas, mas famílias, e não temos hábitos caninos, mas humanos? Parece que talvez este pensamento não seja tão evidente assim, pois tanta e tanta gente opta por assumir que, daí em diante, a sua família será uma matilha. O raciocínio é: se o nosso cão nos vê como membros da matilha, temos de agir como uma, e temos de assumir o papel de líder da matilha. Se o objectivo é ser-se líder e fazer do cão um seguidor, não é extremamente perverso e irónico que determinemos o tipo de grupo que vamos formar em função do membro que se pretende ser o seguidor? Não é altamente risível que, com o objectivo de se colocar o cão no patamar mais baixo da hierarquia, o grupo que outrora fora uma família passe a ser uma matilha? Não é, enfim, altamente absurdo ambicionar formar uma matilha para que o único membro verdadeiramente canino seja o elemento mais inferior da hierarquia? 
Como é óbvio, tudo isto é retórica. Nenhuma família se transforma em matilha. A única razão pela qual se fala em estrutura de matilha é para legitimar uma série de procedimentos que, de outra forma, pareceriam pouco justificáveis. Procedimentos acompanhados do habitual "era o que a mãe do cachorro faria...". Os procedimentos, esses, continuam a ser única e exclusivamente humanos. Nenhum membro de uma matilha ou alcateia passeia outros membros numa trela. Numa matilha não se vestem roupas diferentes todos os dias; não se marcha ou trota em posição bípede; não se manda sentar, deitar, rebolar uns aos outros. Esta história da estrutura da matilha é retórica da mais vaga e inconsistente que podemos imaginar. Quem é que, verdadeiramente, age como um cão perante o seu cão?
É claro que, para sustentar uma ideia que é essencialmente inconsistente, o discurso correspondente não pode escapar a tal inconsistência, também ele. Veja-se o texto de Ed Frawley. Por um lado, sublinha o aspecto central da sua "filosofia" de treino: «Cães domésticos olham para a família com que vivem como a sua matilha. Se os humanos não se tornarem líderes da matilha, os seus cães vão avançar e assumir esse papel». Ora, é como se houvesse uma espécie de necessidade estrutural que exige que um líder se afirme; se não for um humano, será o cão. Tudo a bem da estrutura de matilha. É como se o cão até nem quisesse muito ser o líder, mas, como ninguém se assume, lá terá de ser ele. Bom. Por outro lado, Ed Frawley acaba por admitir que «os cães vêm a vida em termos de preto e branco, (...) vêm a vida em termos de "coisas que são boas para eles" e "coisas que não são boas para eles". (...) a força motriz na vida de um cão é o seu desejo de fazer coisas que os façam sentir-se bem. Os cães nunca fazem coisas para fazer com que o dono se sinta bem, eles fazem coisas que os fazem sentir-se bem». Ora, se fazem as coisas para se sentir bem, pouco se estarão importando com uma pretensa estrutura de matilha. E pouco interesse teriam em ter de assumir liderança perante uma matilha de bípedes com hábitos muito diferentes dos seus... Como conjugar esse carácter oportunista dos cães com uma necessidade intrínseca em pertencer a uma hierarquia normalizada e moralmente estruturada? Como harmonizar a ideia de que «os cães nunca fazem nada para agradar aos donos» com a ideia de que o imperativo número um na educação dos nossos cães é estabelecermo-nos como líderes do nosso cão? Pois claro, não há nenhuma conjugação possível. Qual é a necessidade de formarmos uma hierarquia de matilha e estabelecermo-nos como seu líder se admitimos que o cão não faz nada para agradar esse mesmo líder, e apenas faz as coisas que o façam sentir-se bem? Porque o líder pode providenciar más consequências para o comportamento do cão e, assim, controlar a acção deste? Mas isso é uma da componentes do treino de cães; não é necessário qualquer recurso a ideias mais ou menos elaboradas acerca de estruturas de matilhas e lideranças alfa. Tudo isto se trata apenas de mais uma inconsistência discursiva que é decorrente da inconsistência de ideias em que este discurso se apoia.
O grande problema deste discurso é que estabelece como pressuposto e axiomático um princípio altamente problemático, um princípio que é altamente problematizável na sua forma e na sua constituição. O grande problema é partir-se de um pressuposto inquestionável de que numa relação entre um homem e um cão se define, automaticamente, uma estrutura de matilha, e que toda uma série de problemas surgem quando o elemento humano do conjunto falha em reconhecer essa estrutura automática. Este é o tipo de princípios que não se adquire com a experiência. Existem duas formas de lidar com este tipo de princípios: (i) questioná-los criticamente e remetê-los para os enunciados fornecidos pela(s) ciência(s) que estuda(m) o tema; ou (ii) acreditar neles religiosamente e assumi-los como dogmas da nossa prática. Não tenho grandes problemas com a segunda via; por muito que nos custe admiti-lo, este é um procedimento que rege uma parte significativa da nossa vida. O problema é que, quando se opta por uma tal via e quando, ao mesmo tempo, se tenta erigir todo um sistema de processos e práticas que se fundam na ciência do comportamento e da aprendizagem, as incoerências vão começar a aparecer como cogumelos. Alguns deles bem tóxicos para o resto do sistema...

(continua...)


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Centrão, segunda parte

(continuação)

  • Três categorias de treinadores

Numa segunda parte do seu texto, Ed Frawley faz uma distinção dos três categorias de treinadores que, segundo ele, existem. Os que treinam os seus cães com base em recompensas; os que treinam os seus cães com base em castigos; e os que treinam os seus cães com base em recompensas e em castigos. A grande questão é que, para Ed Frawley, os membros da primeira categoria apenas usam recompensas e os da segunda categoria apenas usam castigos. A virtude estaria, pois claro, na posição intermédia, representada na terceira categoria, que usaria tanto as recompensas quanto os castigos.
Vamos ver de que forma Ed Frawley define estas categorias.

A primeira categoria diz respeito aos treinadores que, segundo ele, «suplicam ou subornam e conduzem os seus cães a fazer alguma coisa ao oferecer comida ou um brinquedo». «Não me interpretem mal, continua Ed, eu também uso comida e brinquedos em treino, mas também uso distracções e correcções. As pessoas nesta categoria não usam nem distracções nem correcções.» Bastar-me-á apenas esta definição para demonstrar o erro de princípio que Ed Frawley comete. 
Em primeiro lugar, nenhum treinador, seja lá de que categoria for, ignora que se devam usar distracções para fortalecer um comportamento. Nenhum. Apenas donos inexperientes acham que quando um cão segue o comando 'senta' na cozinha, ele falo-á de igual forma no parque com dez cães à volta. Um treinador sabe que isto não se passa assim. Dizer que os treinadores que se baseiam em recompensas não usam distracções é uma mentira muito conveniente para desacreditá-los.
Em segundo lugar, nenhum treinador no mundo usa apenas recompensas. Mesmo que não queira ou que disso não tenha consciência, um treinador que esteja a usar reforço positivo terá de usar também castigo negativo, para evitar que comportamentos concorrentes (e indesejados) sejam também reforçados. Usar uma trela é estar pronto para usar castigo negativo quando necessário (sem recurso a esticões, porque isso já será castigo positivo). Dizer que os treinadores que se baseiam em recompensas não usam correcções é uma mentira muito conveniente para desacreditá-los.
Em terceiro lugar, usar comida ou brinquedos como forma de recompensar comportamentos não é, não pode ser uma forma de suborno. Para colocá-lo de forma simples: quando usamos comida como forma de suborno, estamos a fazê-lo mal. Ora, repare bem o estimado leitor que para Ed Frawley o problema não está em distinguir um bom uso de um mau uso de comida ou de brinquedos; para Ed, qualquer uso de comida e brinquedos é uma forma de suborno. E o próprio Ed admite que usa comida e brinquedos no treino. Logo, está a admitir que usa formas de suborno. E, para contornar essa fase de suborno, Ed Frawley vai compensar a balança ao usar também "distracções e correcções". Ed Frawley apenas defende a necessidade de correcções e castigos porque o uso de recompensas é, por essência e definição, uma forma de suborno. Se Ed soubesse, ou admitisse, que o uso de formas de reforço positivo não são formas de suborno; se soubesse ou admitisse que reforço positivo implica criar um historial de boas consequências para um determinado comportamento de modo a que este comportamento se torne cada vez mais frequente, sólido e reforçante em si mesmo; então teria muitas mais dificuldades em justificar as razões pelas quais esta categoria de treinadores peca por defeito. 

A segunda categoria diz respeito a treinadores que, segundo Ed, «intimidam e forçam os seus cães para fazerem o que os donos querem que eles façam». Ed denomina este tipo de treinadores como sendo treinadores do esticão e da cedência (yank and crank trainers), e toma como seu modelo William Koehler. (Uma nota de curiosidade: William Koehler tem mais anos de experiência do que o próprio Ed Frawley; o que é que isto diz do argumento da experiência como princípio de um bom treino? Claro, os anos de experiência não podem ser fundamento da qualidade nem do tipo de treino. Fim de nota.)
Uma vez mais, existem aqui erros de base. Nomeadamente dois.
Em primeiro lugar, nenhum treinador usa apenas castigos e correcções. Por definição, os castigos positivos só funcionam se agregados a um reforço negativo. Existe sempre a recompensa do fim do castigo positivo. No mais, qualquer treinador da "escola" William Koehler usa uma (pretensa) forma de reforço positivo: o elogio. Faz parte de qualquer compêndio de treino tradicional e focado nas correcções proferir palavras de elogio quando o cão "acerta". Se os elogios funcionam como forma efectiva de reforço positivo ou de motivação, isso já é outra questão (o próprio Ed Frawley tem uma apurada e perspicaz visão acerca do assunto, aqui e aqui). A questão é que, segundo a lógica dos "yank and crank trainers", existe espaço para algo mais do que simplesmente correcções; existe espaço para assinalar o bom comportamento. 
Em segundo lugar, o mais importante. Repare o estimado leitor que aquilo que Ed Frawley rejeita nesta categoria não é o tipo de correcções que é feito. Para Ed, o problema não está numa distinção entre boas e más formas de correcção. Para Ed, qualquer uso de correcções é uma forma de forçar os cães a realizarem um comportamento. O erro que Ed distingue nesta categoria de treinadores é focarem-se exclusivamente nas correcções e esquecerem-se da componente recompensadora. 

Aquilo que podemos concluir das definições que Ed Frawley faz destas duas categorias de treinadores é a seguinte: o problema não está no uso da comida e de brinquedos como suborno; o problema não está no tipo forçado e intimidante das correcções: o problema está no uso exclusivo de uma das duas partes. Aquilo que Ed Frawley pretende é um uso combinado daquelas duas categorias. A terceira categoria de treinadores situa-se no meio-termo. Segundo palavras do líder da Leerburg, a terceira categoria «é formada por treinadores que pretendem estar no meio das outras duas categorias». Ed Frawley prossegue, dizendo que tais treinadores «se equilibram no meio, mas estão sempre preparados para se moverem para um lado ou para o outro dependendo daquilo que se estiver a passar num determinado momento do treino do cão».
Ora bem, juntando todas as pontas destas definições, Ed Frawley defende uma categoria de treinadores que balancem entre subornar o cão e intimidar ou forçar o cão. Não se está aqui a fazer qualquer exercício especulativo ou deturpador. Se Ed Frawley define a primeira categoria como aquela que "suplica aos seus cães por um comportamento, e suborna-os para os obter"; se define a segunda categoria como aquela que "intimida e força os cães para obter um comportamento", e se, por fim, define uma terceira categoria (na qual ele se insere) como aquela que "balança entra a primeira categoria e a segunda categoria para aplicar o mais adequado à fase específica do treino", então, aquilo que Ed Frawley está a defender é, simples e literalmente: "oscilar entre subornar o cão ou forçar o cão".
Estou certo de que o estimado leitor se recordará do que foi dito no texto anterior acerca das ideologias do meio-termo: de tanto seleccionar ou peneirar o que de melhor há nos extremos, o meio-termo fica apenas com os restos. Ou seja, o meio-termo, por se definir como posição equilibrada entre dois extremos, fica sempre com aquilo que acaba por criticar nesses dois extremos.
Se Ed Frawley quiser defender que não é isso que pretende; se quiser defender que não pretende nem subornar cães nem intimidá-los, então terá de redefinir a forma como descreveu as duas primeiras categorias de treino. Tenho é a impressão que uma tal redefinição iria tornar a terceira categoria absolutamente desnecessária.

(continua...)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Centrão, primeira parte


"Um dos grandes problemas dos treinadores de cães é que, normalmente, são muito incompletos. Ora usam apenas castigos e esquecem-se das recompensas; ora usam apenas recompensas e esquecem-se dos castigos. O segredo está em dosear ambas as coisas e encontrar o ponto de equilíbrio. O segredo é dominar ambos os mundos para encontrar o difícil balanceamento entre eles."

Ora, uma vez mais, o moralismo! Discursos como este colhem e captam audiência justamente por apelarem ao moralismo que habita em todos nós e que nos diz, por defeito, que "no meio é que está a virtude". Uma pessoa pode não saber absolutamente nada sobre um determinado assunto, mas a sua inclinação natural é para se posicionar no meio, numa posição intermédia: "Pelo sim, pelo não, fico-me pelo meio... exponho-me menos e ainda dou ares de prudência e abertura de espírito."  É parte constitutiva da nossa natureza colocarmo-nos numa posição de meio termo. A maior parte das pessoas que não se envolve nem estuda muito acerca de ideologia política tem sempre uma posição moderada; pode ser mais de esquerda ou de direita, mas apressa-se sempre a dizer que não gosta nada de extremismos. Parte da nossa forma de nos mostrarmos seres compreensivos e eclécticos passa por aparentar uma posição de abertura para aceitar argumentos das duas partes, e peneirar o melhor de cada uma para formar uma pretensa super-posição constituída apenas pelo melhor de dois mundos.
A estratégia do meio-termo começa por estipular uma realidade maniqueísta, uma realidade formada por dois pólos opostos, e dois pólos apenas. O segundo passo consiste em evidenciar os pontos fortes e fracos de cada uma das partes. E o terceiro passo consiste, finalmente, em fundar uma terceira via, ao centro, que reúna o que de melhor há nas duas partes opostas e que descarte o pior.
Os problemas desta estratégia são vários: em primeiro lugar, raras são as realidades constituídas apenas por dois pólos; cada um desses pretensos pólos é constituído por diferenças internas que fragmentam a realidade em muito mais do que duas simples realidades opostas; em segundo lugar, os pontos fortes de duas posições contrárias raramente são compatíveis, pelo que é apenas estratégia discursiva e ilusória dizer-se que existe uma terceira via que reúne o melhor de dois mundos; em terceiro lugar, uma posição centralista raramente acolhe o melhor das posições polares; ao contrário, de tanto peneirar, aquilo que é acolhido pelo centrão é, invariavelmente, o que sobra dos pólos. Uma verdadeira via alternativa, uma verdadeira terceira via nunca opta pelo meio termo; ao invés de se agarrar ao que já há e seleccionar o que lhe convém, uma verdadeira nova via inaugura novas possibilidades. Em quarto e último lugar, uma posição centralista pode ser tão ou mais ideológica e dogmática quanto as posições polarizadas. O centrão é isso mesmo: uma ideologia do meio-termo, cujo fundamento principal é o de fazer-se passar por eclético e moderado quando, na verdade, defende as suas posições de forma tão dogmática quanto as posições extremistas.
Por todas estas razões desconfio sempre quando alguém forma um discurso baseado numa retórica do meio-termo. E o mundo do treino de cães não escapa a esta lei.

Para que o estimado leitor compreenda em que consiste a posição (retórica) do meio-termo, leia isto. Não vai encontrar melhor representante do que este. Tudo o resto ou é imitação barata ou é de qualidade duvidosa. Esta fonte que aqui lhe forneço tem a seriedade de basear as suas afirmações em largos anos de experiência, tem a honestidade de reconhecer erros passados e aprender novas coisas, mesmo depois de mais de quarenta anos a fazer esses erros, e possui a proeza (difícil de encontrar) de tentar formar um sistema fundamentado de educar um cão.
Posto isto, e uma vez que este texto representa o que de "melhor" há na ideologia do meio-termo, o Abacaxi vai dedicar este e os próximos "posts" a um trabalho crítico do conjunto de ideias apresentadas bem como das consequências e dos preceitos implícitos num tal conjunto. Façamo-lo por partes.

  • Introdução: o apelo à experiência

Comecemos pelo curto texto introdutório, no qual Ed Frawley fala da sua filosofia (leia-se ideologia) de treino e educação de cães. A ideia fundamental desta introdução, bem como o seu maior problema consiste no relevo exacerbado da experiência. A dada altura é dito que «um bom treino de cães reside na combinação de senso comum com uma base sólida de experiência e uma clara compreensão da forma como os cães pensam e interagem (estrutura de matilha).»
Ora, para se ter uma vasta experiência num ramo qualquer é necessário, justamente, acumulação de anos que formem essa experiência. Isso implica que, a dada altura no processo, essa experiência não exista ainda; e o indivíduo que mais tarde virá a ser um profissional experiente, ainda não o é. Ora, como um dos requisitos de um bom treino, segundo Ed Frawley, é ter larga e sólida experiência, isso significa que, durante o tempo em que essa experiência ainda não havia sido constituída, e o indivíduo era ainda inexperiente, o treino por si realizado não poderia ser bom. Logo, um indivíduo que seja "bom treinador", segundo Frawley, é um indivíduo experiente; mas, por definição, toda a sua experiência se baseia em anos de mau treino, que equivalem aos anos em que ainda não se detinha a tal base sólida de experiência. A definição de Frawley de "bom treino" é, em si mesma, absurda, pois baseia-se em algo que se contradiz a si mesmo.
E depois vem o famigerado "senso comum". É verdade que, no inglês americano, "common sense" não é bem "senso comum", mas uma mistura de "senso comum" com "bom senso". Ainda assim, a ideia é extremamente frágil. O senso comum, misturado com o bom senso, é a causa da esmagadora maioria dos problemas que existem no que toca à educação de cães. Aliás, que coisa é essa de senso comum e de bom senso? Desde logo, é algo extremamente variável de cultura para cultura; depois, quando falamos de senso comum falamos de que tipo de comunidade? entre donos experientes e preocupados, certos mitos já se desvaneceram, mas os mesmos continuam a proliferar no senso comum de outros grupos com outros interesses... Basicamente, o apelo ao senso comum e ao bom senso é uma bela desculpa para se evitar um estudo pela via da ciência, e para se validar um tipo de conhecimento baseado nas experiências próprias. O problema é que, como se sabe, as experiências variam de caso para caso e não têm nem podem ter qualquer valor de universalidade ou generalidade. 
No caso específico deste texto de Ed Frawley, o apelo ao senso comum é apenas uma legitimação do valor que é conferido à experiência. O grande argumento inicial de Ed Frawley é, pois claro, a sua vasta experiência. Mas note-se no seguinte:  a experiência de Ed Frawley no ramo é, segundo o próprio, superior a 50 anos de trabalho directo com cães, e mais de 40 anos de trabalho profissional. No entanto, há cerca de 12 anos atrás, o próprio Ed Frawley fez uma grande viragem nos princípios que regiam o seu treino, e hoje admite que uma parte significativa do seu trabalho anterior ao início do presente século está ultrapassado e, usando palavras suas, não passava de uma grande porcaria ("it's rubbish!"). Não está em causa a viragem e a renúncia; ela não deixa de ser digna de realce: é preciso uma dose considerável de honestidade e despojamento de si próprio para admitir 30 anos de erros. O que está em causa é que, durante mais de trinta anos, Ed Frawley concebeu práticas que hoje reprova; o que é que isso diz acerca do argumento da experiência? Simplesmente, a experiência tem um papel muito relativo em tudo isto. Não foi por fruto da experiência que Ed Frawley terá mudado de opiniões; terá sido pelo confronto com outras perspectivas, pelo advento e sucesso comprovado de vias alternativas que fizeram Ed Frawley rever os seus princípios, e rejeitar alguns deles. A experiência nunca pode valer como argumento que comprove a legitimidade de uma determinada ideia. Por cada indivíduo com 30 ou 40 anos de experiência que defenda uma determinada ideia, existem quatro ou cinco com experiência igual ou superior que defendem uma ideia contrária. A experiência vale muito pouco, a partir do momento em que vários profissionais com o mesmo nível de experiência chegam a conclusões opostas. E valerá ainda menos quando se trata de conceitos de teor científico. Eu posso um dia chegar a ter 50 anos de prática diária de lavar louça manualmente; mas isso não me vai dar créditos alguns se eu quiser construir um discurso acerca do modo de acção do ácido linear alquil benzeno.. 
Conceitos como os de dominância têm um âmbito bem definido dentro da área da Etologia. Para se falar dele é preciso, pelo menos, ouvir o que está disponível no corpo discursivo da ciência respectiva. Não faz sentido basear todo um sistema de treino e educação de cães num conceito cujo tratamento científico não só se ignora como se coloca propositada e conscientemente de lado. A experiência é manifestamente insuficiente e, sobretudo, nunca pode legitimar nenhum discurso com pretensões de validade universal e sistemática.

(continua...)

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Condicionamento clássico, versão livro amarelo


O primeiro passo para desmistificar o mito de que o uso de comida não serve para tratar de casos de agressividade é o seguinte: compreender que a comida não serve apenas para recompensar o bom comportamento. A comida serve, também, e sobretudo, como forma de accionar uma desejável associação entre um estímulo (no caso, aquilo que despoleta a agressividade) e algo de importância primária e sobejamente positiva (a comida). A comida serve para criar uma associação que faça com que algo que é visto como negativo pelo cão (algo perigoso, inseguro, desconhecido) passe a ser visto como positivo (seguro, indicador ou previsor de coisas boas).

O segundo passo para desmistificar o mito de que o uso de comida não serve para tratar de casos de agressividade é o seguinte: compreender o que é o condicionamento clássico, não confundir as suas leis com as leis do condicionamento operante, entender que tanto o clássico quanto o operante estão sempre a actuar e, por fim, saber as formas de usar as leis do condicionamento clássico a nosso favor e a favor da boa aprendizagem do nosso cão.

O terceiro passo para desmistificar o mito de que o uso de comida não serve para tratar de casos de agressividade é o seguinte: compreender que, de uma forma ou de outra, para se "reabilitar" um cão com problemas de agressividade ter-se-á de fazer um intenso trabalho de condicionamento clássico, de forma a associar o estímulo que gera a agressividade (outros cães, pessoas, etc.) com coisas positivas e seguras. Como, dê por onde der, vai ter de ser feito esse trabalho de condicionamento clássico, por que não fazê-lo desde logo? É mais tortuoso, lento, arriscado e frustrante começar por castigar o cão até o comportamento de agressividade ser colocado em hiato ou latência; e é mais directo, rápido, seguro e motivante começar imediatamente pelo trabalho de condicionamento clássico. Para isso, é boa ideia começar com uma distância de segurança, em vez de expor o cão a uma proximidade que ainda não é capaz de tolerar.

sábado, 22 de junho de 2013

Metodologias de treino - condicionamento operante, versão livro amarelo

Tem exame amanhã e ainda não leu os últimos textos do blog?
Não desespere, o Abacaxi lança mais um Livro Amarelo, desta vez contendo apontamentos sintéticos acerca do tema "Metodologias de treino - condicionamento operante".



  • É errada e mitificada a ideia de que a abordagem mais prudente na educação do seu cão passa por misturar procedimentos de métodos diferentes, e ajustá-los ao seu cão. Não existem mais do que dois métodos, e esses métodos são mutuamente exclusivos, nos seus fundamentos. Dentro do mesmo método é possível avançar com várias formas de se abordar um mesmo problema.
  • Os fundamentos dos métodos de treino de cães baseiam-se nas leis do condicionamento operante.
  • A primeira noção fundamental no quadro do condicionamento operante é que o comportamento é condicionado a partir das consequências que dele decorrem. Se, tendencialmente, o comportamento x tem consequências boas, esse comportamento tem altas probabilidades de vir a repetir-se no futuro. Se, tendencialmente, as consequências forem más, esse comportamento tem altas probabilidades de não se vir a repetir no futuro. 
  • As consequências não são apenas providenciadas pelos donos dos cães. Um comportamento pode ser cultivado quando um dono recompensa esse comportamento, ou quando o ambiente recompensa esse comportamento. Muitas vezes, os donos castigam os seus cães e estes, contudo, mantêm o comportamento; o que acontece nesses casos é que os donos se esquecem que o comportamento que estão a castigar pode estar a ser reforçado por outras coisas.
  • Um comportamento tem mais tendência a acontecer depois de determinados antecedentes que estejam associados a boas consequências. Por exemplo, sempre o cão se senta depois do dono dizer 'senta', o cão recebe um biscoito; mas sempre que o cão se senta depois de o dono bocejar, nada acontece como consequência. O cão vai aumentar as vezes em que se vai sentar depois de o dono se senta, e vai diminuir até à extinção as vezes em que se senta depois de o dono bocejar.
  • Cada método de treino define-se pelo tipo de consequências que providencia para os comportamentos do cão.
  • Existem quatro tipos de consequência: reforço positivo, reforço negativo, castigo positivo, castigo negativo. 
    • Reforço (seja positivo ou negativo) é tudo aquilo que torna o respectivo comportamento mais provável de acontecer no futuro. 
    • Castigo (seja positivo ou negativo) é tudo aquilo que torna o respectivo comportamento menos provável de acontecer no futuro.
    • Positivo (seja reforço ou castigo) é tudo aquilo que envolve ou incide sobre uma acção do animal.
    • Negativo (seja reforço ou castigo) é tudo aquilo que implica uma prevenção ou um evitar de uma acção do animal.
    • Reforço positivo é o tipo de consequência que torna o respectivo comportamento mais provável de acontecer e incide directamente sobre uma acção do cão.
    • Reforço negativo é o tipo de consequência que torna o comportamento em causa mais provável de acontecer, mas lida com um comportamento negado. Aquilo que se pretende reforçar é a ausência de um determinado comportamento.
    • Castigo positivo é uma forma de reduzir as probabilidades de um determinado comportamento vir a ser repetido, e incide sobre o comportamento propriamente dito. 
    • Castigo negativo é uma forma de reduzir as probabilidades de um determinado comportamento ser repetido, mas, em rigor, incide sobre um não-comportamento, ou melhor, um comportamento ainda não ocorrido totalmente. Este castigo impede que um determinado comportamento seja reforçado positivamente.
  • Nenhum destes tipos de consequência actua completamente isolado. Actuam, na verdade, aos pares. Reforço positivo actua em conjunto com castigo negativo. Reforço negativo actua em conjunto com castigo positivo. Por exemplo, não há reforço positivo de um determinado comportamento desejável sem que haja castigo negativo dos comportamentos indesejados que possivelmente pudessem acontecer. Assim como não há reforço negativo de um comportamento se este não tiver sido, previamente, castigado positivamente. 
  • É possível usar-se castigo positivo e depois reforço positivo? Sim, é. Mas, em rigor, já não se está a trabalhar o mesmo comportamento. Por exemplo: um cão salta para as pessoas quando chegam em casa; um dono pode decidir tratar do problema começando por exercer castigo positivo; ou seja, de cada vez que o cão salta para alguém, o dono providencia uma consequência má para esse comportamento de modo a fazer com que o cão não tenha mais vontade de realizá-lo. Sempre que o cão salta para alguém, algo de mau surge como consequência; este tipo de consequência vai determinar uma tendencial extinção do comportamento. Quando o cão deixa de saltar para as pessoas, o seu comportamento é automaticamente reforçado (negativamente) pelo facto de já não receber qualquer tipo de punição desagradável. Se o dono resolver recompensar o cão por não saltar com festas, biscoitos ou palavras, isso já é reforço positivo (e não o reforço negativo que surge automaticamente associado ao castigo positivo); e, em rigor, já se está a reforçar um novo comportamento; já se trata de um segundo comportamento - o cão já não salta - e não do primeiro comportamento, que era saltar. 
  • A grande questão é a seguinte: se o objectivo é, no final, recompensar o bom comportamento, então por que razão perdemos tempo em castigar o mau comportamento até que ele termine, se podemos começar desde logo a recompensar o bom comportamento? De que modo?, perguntarão. Fácil, promovendo o bom comportamento e reforçando-o. Usando o mesmo exemplo: se um cão salta para as pessoas quando estas chegam a casa, ensine o seu cão a sentar-se; quando ele o fizer, reforce o comportamento de modo a que ele se repita no futuro (ajuda que nas primeiras vezes faça do seu "reforço" uma consequência bem memorável, e não uma consequência perto de neutra). E quando o cão saltar, na mesma? Simples: castigo negativo. Por cada salto, não há recompensas e não há atenção do dono. O cão vai ser rápido a perceber qual é o comportamento com melhores consequências: "sentar (ou seja, não saltar!) e receber recompensar e a atenção dos meus donos ou saltar e ser ignorado... hm...". A escolha não me parece difícil.
  • Diga-se o que se disser acerca das formas de castigo positivo, este tem, forçosamente, de ser aversivo. De outra forma, não resultaria. Se um cão deixa de ter um comportamento é porque as consequências para este comportamento passaram a ser más ao ponto de ele abandoná-lo. Se o castigo fosse brando, leve, ténue, as consequências não seriam fortes o suficiente para que o cão deixasse de realizar esse comportamento. Até porque, se esse comportamento já existe, é porque ele tem tido boas consequências. Logo, para que o castigo positivo se sobreponha às consequências que esse comportamento tem tido, ele tem de ser mais intenso; ele tem de ser, sempre, aversivo. 
  • A pergunta que faço é a seguinte: se existe uma forma de ensinar o seu cão através da promoção dos comportamentos correctos (reforço positivo) e prevenção dos comportamentos incorrectos (castigo negativo), por que raio é que alguém prefere punir aversivamente os comportamentos incorrectos (castigo positivo) e esperar que surjam os comportamentos correctos para parar de castigar (reforço negativo)?
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Amanhã há aula prática.



sexta-feira, 21 de junho de 2013

Metodologias de treino - segunda parte: os erres e os pês do condicionamento operante

(continuação)

Lembremo-nos da ideia mitificada que está em causa: achar-se que a atitude mais conveniente e menos dogmática é aquela que usa um pouquinho de cada método para atender às necessidades individuais do seu cão e à situação concreta.

Para desmistificá-la, teremos de continuar a esclarecer em que consiste o condicionamento operante. Vimos, ontem, o seu ABC, ou seja, vimos que o comportamento (B) do cão varia consoante as consequências (C); e a melhor forma de controlar o comportamento e as respectivas consequências é estipular um adequado antecedente (A). Os tipos de antecedente, como sugerimos, são vários (um comando, um gesto, uma buzina, umas chaves colocadas na fechadura, o motor do carro, um clique, tudo isto pode despoletar comportamentos); os comportamentos, esses são tantos quanto a sua imaginação quiser dar forma. Já os tipos de consequências são apenas quatro. Materialmente, há muitas consequências possíveis, claro; mas, em termos de efeito para o comportamento (torná-lo mais provável ou menos provável de acontecer no futuro), aí só há quatro possíveis. Quando falamos de consequências para o comportamento falamos de reforço positivo, reforço negativo, castigo positivo e castigo negativo. Como se vê, desde logo, reforço positivo não é, em rigor, um método, mas um tipo de consequências para o comportamento. Um de quatro tipos. Entremos em definições:

  • Reforço (seja positivo ou negativo) é tudo aquilo que torna o respectivo comportamento mais provável de acontecer no futuro. 
  • Castigo (seja positivo ou negativo) é tudo aquilo que torna o respectivo comportamento menos provável de acontecer no futuro.
  • Positivo (seja reforço ou castigo) é tudo aquilo que envolve ou incide sobre uma acção do animal.
  • Negativo (seja reforço ou castigo) é tudo aquilo que implica uma prevenção ou um evitar de uma acção do animal.

Um dos maiores problemas na compreensão real destas noções tem a ver com a carga semântica que a maioria destes termos possui. O único termo que eu considero perfeitamente feliz, porque isento de conotações deturpadora, é o termo 'reforço'. Ao evitar-se o uso de palavras como "recompensa", e usarmos a palavra 'reforço' estamos a ir ao fundo da questão: tudo de quanto se trata é de reforçar uma determinada acção, um determinado comportamento, e, como tal, torná-lo mais provável de voltar a acontecer. 
O mesmo não se passa com os outros três termos, carregadíssimos de conotações que desviam o sentido da nossa compreensão. Quando falamos em castigo, neste contexto de ciência da aprendizagem, devemos evitar toda aquela acepção punitiva que o termo 'castigo' transporta. Existe uma forte noção de justiça por detrás da noção de castigo. E isso tem tremendas implicações na forma como educamos os nossos cães. Quando um cão tem um determinado comportamento que consideramos inadequado, tendemos a castigá-lo por razões de justiça: "não é justo que um cão tenha feito uma asneira e eu continue aqui como se nada fosse". É esta a mentalidade que perpetua certas aberrações do ponto de vista da aprendizagem canina como, por exemplo, o famoso 

"ah, deixa-o estar aí; não brinques com ele porque ele está de castigo"
"então, o que é que ele fez?"
"fez xixi ali na cozinha, hoje de manhã".

Apenas um sentimento, mais ou menos inconfessado, de equidade jurídica permite este tipo de procedimentos por parte dos donos. É extremamente urgente deixar cair o moralismo com que estabelecemos parâmetros de justiça para o comportamento animal, e que definitivamente procedamos de acordo com as leis de aprendizagem. Segundo esta perspectiva, o castigo não é mais do que uma forma de fazer com que o comportamento em causa (a castigar) se repita menos e menos vezes no futuro. Devemos encarar a noção de 'castigo' mais de acordo com a forma como um pai castiga o filho quando este faltou a uma aula para ir jogar bilhar para o café. Este pai sabe que um tal comportamento nada tem de grave nem sequer de anormal; ele próprio tê-lo-á feito quando tinha a mesma idade; mas esse pai também sabe que não fala "a mesma língua" que um jovem adolescente, e sabe que a melhor forma de evitar repetições ou mesmo eventuais escaladas de mau comportamento do seu filho é castigar aquele primeiro comportamento. Não por uma questão de justiça, mas por uma questão de aprendizagem: em vez de achar que um jovem adolescente é capaz de discernir o que é o certo e o errado, tornar o comportamento menos provável de ocorrer no futuro e, ao mesmo tempo, ir definindo e construindo, passo por passo, o sentido de responsabilidade pelos próprios actos. No caso concreto dos cães, esse "sentido de responsabilidade" será obtido por uma correcta aprendizagem do jogo das consequências: certos comportamentos têm certas consequências, logo...
Também os termos 'positivo' e 'negativo' padecem do mesmo mal. Muito facilmente estabelecemos uma equivalência entre positivo e bom, e entre negativo e mau. Mais uma vez, o problema está na forma moralista como vemos as coisas. É comum, por exemplo, depararmo-nos com pessoas que julgam que um castigo positivo é uma forma de castigar exemplarmente, enquanto um castigo negativo seria uma forma demasiado rude de castigar. É também comum a ideia de que uma correcção é uma forma de reforço negativo (como se fosse uma oposição ao reforço positivo). Estas ideias são tão comuns quanto erradas. É melhor pensarmos em termos matemáticos e gramaticais, onde o moralismo não chega a contaminar as ideias. Positivo, em termos matemáticos, tem a ver com adição, com acrescento, com construção. Positivo é afirmação, é algo que se impõe por si. Negativo, por seu lado, tem a ver com a subtracção, com o retirar algo a uma grandeza já formada. Negativo não é mais do que o plano em que se nega algo que, de outra forma, seria afirmativo.

Vejamos, então, as quatro consequências possíveis.

  • A mais fácil de compreender é a consequência que se denomina como reforço positivo (positive reinforcement, ou R+). Reforço positivo é o tipo de consequência que torna o respectivo comportamento mais provável de acontecer e incide directamente sobre uma acção do cão. Reforço, porque aumenta a probabilidade do comportamento; positivo, porque diz respeito ao comportamento efectivamente realizado, diz respeito à acção, propriamente dita.
  • Reforço negativo (negative reinforcement, ou R-) é o tipo de consequência que torna o comportamento em causa mais provável de acontecer, mas lida com um comportamento negado. Ou seja, o comportamento que é reforçado negativamente é, na verdade, uma ausência de comportamento. Aquilo que se pretende reforçar é a ausência de um determinado comportamento. Daí que se denomine negativo.
  • Castigo positivo (positive punishment, ou P+) é uma forma de reduzir as probabilidades de um determinado comportamento vir a ser repetido, e incide sobre o comportamento propriamente dito. Isto é, aquilo que é positivamente castigado é um comportamento que se verifica efectivamente. O objectivo do castigo positivo é, pois claro, evitar que um comportamento efectivamente verificado se repita no futuro.
  • Por fim, castigo negativo (negative punishment, ou P-) é uma forma de reduzir as probabilidades de um determinado comportamento ser repetido, mas, em rigor, incide sobre um não-comportamento, ou melhor, um comportamento ainda não ocorrido totalmente. O objectivo do castigo negativo é fazer com que um determinado comportamento considerado desajustado venha a ser reforçado por si mesmo, sendo, por isso, evitado, negado, impedido antes que aconteça tal reforço.

Tal como na física, termos da mesma valência repelem-se e termos de valência oposta atraem-se. O reforço positivo funciona juntamente com o castigo negativo; o reforço negativo funciona em par com o castigo positivo. Porquê? Simples. Vamos ver as várias combinações possíveis, 

Reforço positivo com reforço negativo: simplesmente, não podem ser combinados, pois implicam dois comportamentos diferentes a serem reforçados. É só um comportamento (ou uma sequência de comportamentos, o que, para o efeito, é a mesma coisa, pois é apenas UMA coisa a ser reforçada) que pode ser reforçado; é impossível reforçar um comportamento positivamente e negativamente. Até porque, como vimos, o reforço negativo implica que o comportamento reforçado não esteja a ocorrer, enquanto o reforço positivo incide directamente sobre um comportamento que tenha acabado de acontecer. 

Castigo negativo e castigo positivo: pelas mesmas razões, são incompatíveis.

Reforço positivo e castigo positivo: como é óbvio, não podemos estar a reforçar e a castigar o mesmíssimo comportamento; e seria isso que uma situação de R+ com P+ suporia. 

Reforço negativo e castigo negativo: como é óbvio, não podemos estar a reforçar e a castigar a mesma ausência de comportamento. 

Reforço positivo com castigo negativo: aqui sim, faz sentido. Reforça-se o comportamento desejado, mas sempre com auxílio do castigo de eventuais comportamentos indesejados. Tomemos como exemplo o ensino de andar à trela: fazê-lo com recurso ao reforço positivo implica recompensar/reforçar os momentos em que o cão está a ter o comportamento adequado (andar sem puxar), mas implica também um extremo cuidado em não deixar que o cão seja reforçado por comportamentos desadequados (puxar na trela). De cada vez que um cão puxa a andar à trela e, efectivamente, prossegue na marcha, a acção de puxar na trela é reforçada por si mesma (reforço positivo), pois existe uma boa consequência para essa acção (o cão ficou mais perto do ponto que está a visar). Para evitar que o cão seja reforçado por um comportamento que não queremos de todo reforçar, então temos de abrir mão do castigo negativo sempre que o cão começar a puxar na trela. A forma mais usual será, neste caso, parar de andar. Simplesmente, parar. Não há nada de justo nem moral; é simplesmente uma forma operante de ajustar o comportamento. Paramos para evitar que a acção indesejada se torne menos provável de se repetir no futuro. Mas, no sentido inverso, só faz sentido fazermos isto se usarmos reforço positivo nas situações em que o cão não está a puxar na trela, de forma a que seja este o comportamento mais reforçado, logo, mais provável de ocorrer no futuro.
Esta combinação de consequências é aquela usada pelo método que vem sendo denominado como "método do reforço positivo", "método positivo", "positivismo", ... Eu prefiro chamá-lo "método com recurso ao reforço positivo", embora compreenda a conveniência de se usar um nome mais curto. (Só não acho nada ajustado chamar-se-lhe, simplesmente, "positivo", "positivista" ou "positivismo", na medida em que o método contrário também usa algo no quadrante positivo, o castigo)

Reforço negativo com castigo positivo: este também faz sentido. Um funciona como complemento do outro. A diferença deste caso em relação ao par anterior é que vai acontecer um quadro operativo completamente inverso. Tomemos o mesmo exemplo de andar à trela. Se optarmos por ensinar este comportamento através da combinação R- e P+, iremos proceder deste modo: sempre que o cão estiver a puxar na trela, castigamos. Até aqui, nada de novo; só que o castigo, ao ser positivo e não negativo, já não se limita a impedir que o "mau" comportamento continue e seja reforçado; castigar positivamente um cão que puxa na trela implica fazer-lhe alguma coisa de forma a que este comportamento lhe traga más consequências. O procedimento mais habitual: dar um (ou mais) esticão na trela. A ideia é castigar o cão de forma a que este não pretenda continuar a ter o comportamento; depois, quando o cão pára de puxar, surge o reforço negativo. Aqui, o reforço negativo surge pela simples paragem do castigo, ou seja, surge quando o dono deixa de dar esticões na trela. Sinteticamente: o comportamento inadequado acontece: o dono castiga positivamente, promovendo uma consequência má para tal comportamento; tendo em conta este quadro de consequências, o cão pára o comportamento, e o dono deixa de castigar. A consequência de parar de puxar na trela é boa, pois significa o final do castigo.
Esta combinação de consequências é aquela usada pelo método a que podemos, genericamente, denominar como "Método tradicional".

Em termos formais, quer num caso (R+ com P-) quer noutro (R- com P+) faz-se um trabalho muito semelhante de controlo das consequências para cada comportamento. Isto é, em vez de deixar que seja o ambiente ou as circunstâncias a providenciarem as consequências para o comportamento (no caso de puxar na trela, se nada fizermos, o comportamento vai ser auto-reforçado, ou melhor, reforçado pelas consequências fornecidas pelo próprio ambiente...) está-se a usar as relações entre comportamento e consequência a nosso favor. Mas há um detalhe que torna um caso bem distinto do outro. A pergunta a fazer é "o que é que foi realmente ensinado"? No primeiro caso, a resposta será: "o cão aprendeu a andar sem puxar". No segundo caso, a resposta será: "o cão aprendeu a não puxar". Ou seja, no primeiro caso, o cão aprendeu por promoção do comportamento desejado (e impedimento do comportamento indesejado); no segundo caso, o cão aprendeu por repulsão (primeiro) e ausência (depois) do comportamento indesejado. Ora, o par R+P- trabalha sobre o comportamento que se pretende ver repetido; o par R-P+ trabalha sobre o comportamento que se pretende ver extinguido. 
Uma pergunta muito pertinente poderá levantar-se, neste momento: mas e então eu não posso castigar o meu cão com um esticão na trela quando ele estiver a puxar, e depois recompensá-lo com uma bolacha quando ele estiver a andar sem puxar? Traduzindo esta pergunta para os termos formais: será que não podemos, mesmo, usar primeiro o castigo positivo e, depois, o reforço positivo? Esta é a grande rasteira que assombra o pensamento de demasiada gente, incluindo muitos profissionais. É que é extremamente atractivo (uma vez mais, por questões também moralistas) colocarmo-nos no (pretenso) meio termo e descomprometermo-nos com qualquer facção (pretensamente) ideológica ou extremista. Repare no que foi dito acima acerca da combinação eventual entre reforço positivo e castigo positivo: quando temos estes dois tipos de consequências, temos já dois comportamentos a ocorrer, pois não podemos reforçar positivamente e castigar positivamente o mesmo comportamento. Ora, quando o caro leitor castiga (positivamente) o seu cão com um esticão na trela (ou afim) por este puxar, e, quando o cão deixa de puxar, o caro leitor o recompensa, na verdade está a fazer um processo faseado em que está a lidar com dois comportamentos. Isto pode parecer um preciosismo, mas, conforme se verá, não é. É que, na verdade, o simples facto de deixar de dar esticões já é um reforço; é o puro reforço negativo. O seu cão puxa na trela -> o dono castiga-o (com um esticão, por exemplo) - > o cão cessa o comportamento inadequado -> o dono deixa de castigar. O "deixar de castigar" é uma forma de reforço; é, como disse, o reforço negativo. Se o caro leitor decidir, depois disso, recompensar o seu cão por estar a andar sem puxar, então vai estar a usar reforço positivo, é certo, mas não como par do castigo positivo. O par do castigo positivo é, sempre, o reforço negativo. Neste caso, castigou positivamente o puxar na trela; reforçou negativamente o deixar de puxar; e completou reforçando positivamente o andar sem puxar. É uma via legítima, claro. Mas estão em causa dois processos e não um só. Na verdade, não existe um uso "misturado" ou "conciliado" ou "balanceado" de métodos. Existe o uso de um método seguido do uso do outro método. 
E qual é o mal? Toda esta lengalenga de erres e pês tem dois objectivos:

a) Tal como se disse na primeira parte, este tema é chato e estéril - não é por saber distinguir um R+ de um R- que o meu cão vai saber andar à trela sem puxar. Mas é extremamente conveniente que saibamos a estrutura e os fundamentos da aprendizagem animal para que saibamos o que estamos a fazer quando tentamos moldar o comportamento do nosso cão. Assim, é muito importante que saibamos que existem dois e só dois tipos de conjugação de consequências: reforço positivo com castigo negativo e reforço negativo com castigo positivo. É possível, tal como no último exemplo, castigarmos positivamente um cão e depois reforçar positivamente? É, mas teremos de ter a consciência de que estamos a castigar positivamente (e reforçar negativamente) um comportamento, e estaremos de seguida a reforçar positivamente um OUTRO comportamento. 

b) Voltemos questão: posso castigar o meu cão (com um esticão) quando ele está a puxar à trela, e depois recompensá-lo (com comida, por exemplo) quando ele está a andar sem puxar? Pode, sem dúvida. Mas a pergunta que eu coloco é a seguinte: se o objectivo é que o seu cão ande à trela sem puxar, por que é que não começa logo por aí? Por que é que não começa logo com o reforço positivo do comportamento desejado? "ah, porque o meu cão puxa bastante, e ele passa mais tempo a puxar do que a andar sem puxar; logo, não posso abrir mão de castigar o comportamento incorrecto; não posso simplesmente esperar pelo bom comportamento para recompensá-lo". Pois não! Tem toda a razão o leitor se pensar assim. Mas por isso é que existe uma coisa chamada castigo negativo. Sempre que o seu cão estiver a puxar, simplesmente pare. Isso já é castigo: é castigo negativo, na medida em que evita que o seu cão seja reforçado indevidamente. E tudo aquilo que pretende não passa disso: impedir que o seu cão seja reforçado pelo comportamento errado; promover que o comportamento certo seja repetido no futuro. Se der consigo a perguntar-se: "mas qual é mal de dar uma correcção (castigo positivo)?", eu aconselho que pense assim: porquê usar castigo positivo se obtém aquilo que deseja apenas usando o castigo negativo? 
Aquilo que devemos perguntar num caso destes, realmente, é o seguinte: o que é que eu pretendo reforçar (isto é, fazer com que o meu cão faça mais vezes no futuro)? andar na trela sem puxar, ou parar de puxar quando anda à trela? Pode parecer exactamente a mesma coisa, e, no limite, o efeito prático até pode ser o mesmo. Mas a maneira como formulamos aquela questão define perfeitamente a forma interpretamos o comportamento e a educação dos nossos cães: se eu escolher a resposta "quero que o meu cão pare de puxar quando anda à trela", estou implicitamente a pressupor que existe uma forma correcta natural do meu cão, e que é andar à trela sem puxar, e que existe, por contrapartida, um desajuste comportamental, que consiste em puxar na trela. Se, ao invés, eu escolher a resposta "quero que o meu cão ande na trela sem puxar", então estou a aceitar que o meu cão não sabe andar à trela, por defeito e por natureza, e que é preciso que seja ensinado. 

Uma palavra acerca do valor e das intensidades das consequências. 
O reforço positivo apenas funciona se for realmente reforçante, isto é, se tiver um valor alto para o cão de modo a ser uma consequência que torne o comportamento mais apetecível, mais susceptível de ser repetido. Quando o nosso cão faz o seu primeiro xixi na rua, existe uma diferença enorme entre fazer uma festinha e dar cinco pedaços de fígado cozido; lembre-se que o objectivo é tornar o comportamento mais provável no futuro, e não um qualquer concurso de integridade de carácter. 
O castigo negativo só funciona se, efectivamente, impedir que o cão conclua uma determinada acção cuja consequência fosse tornar essa acção mais provável no futuro. Ao mesmo tempo, o castigo negativo só funciona se o reforço positivo que lhe está associado for efectivamente forte; caso contrário, o comportamento que foi castigado negativamente poderá conhecer novos ensaios, pois não foi dada uma razão suficientemente forte para que essas novas tentativas não surgissem.
O castigo negativo só funciona se for realmente aversivo. Nenhum cão deixa de puxar na trela ou de ladrar se sentir uma pequena vibração ou um ligeiro toque no pescoço. O castigo positivo só o é se se afirmar como uma má consequência para o comportamento em causa; não há castigos positivos sem aversão; tal coisa seria apenas uma consequência neutra e, como tal, não levaria o cão a abandonar o respectivo comportamento.
O reforço negativo só funciona se o castigo positivo associado for realmente aversivo, fazendo do reforço negativo um alívio claro e inequívoco. Se o castigo positivo não tivesse sido realmente aversivo, o reforço negativo perderia toda a sua força reforçante, pois o cão não sentiria qualquer alívio ou sensação recompensadora pelo fim do castigo. 

Voltemos a colocar a perguntar enunciada acima: posso castigar (positivamente) o meu cão e depois reforçar (positivamente) quando ele se portar bem? Pode, mas se o objectivo é chegar à parte em que se usa o reforço positivo (recompensa pelo bom comportamento) por que razão começar o processo por algo que é necessária e inevitavelmente aversivo? "Porque não chega recompensar; o cão também tem de ser castigado quando tem um comportamento inadequado". Claro, mas para isso é perfeitamente suficiente o castigo negativo, que, aliás, é o par indissociável do reforço positivo.

A conclusão onde quero chegar é a seguinte: a mistura entre métodos não existe, propriamente. Ou se usa um, ou se usa outro. Poderemos, eventualmente, complementar um método com o outro. É materialmente possível. Só que não só não é necessário, como é até altamente desaconselhável e, sobretudo, sem sentido. Um método tem já as ferramentas todas para funcionar, por si só. Se se torna necessário recorrer ao outro método, como complemento, então é sinal de que o primeiro método não foi suficiente e, em todo o caso, era completamente desnecessário ter-se recorrido a esse primeiro método se se acabou por ter de se recorrer ao outro. No caso, e a insistência é propositada: se se vai acabar por recompensar as boas acções, então era completamente desnecessário o recurso ao castigo de tipo aversivo. O castigo negativo chegava bem.